Ao Zé Pedro e ao Punk

Originalmente, o punk surgiu nos Estados Unidos da América, por volta de 1974, como uma manifestação cultural da insatisfação social juvenil. Os míticos e ainda tão presentes Ramones, foram a primeira referência, dando caminho a outros, como os Sex Pistols, os mais recentes Offspring e, em Portugal, destaco os Censurados, os Tara Perdida, Mata Ratos, Ratos do Porão, Ku de Judas, Peste e Sida, Xutos e Pontapés de Zé Pedro.

Penso que não vale a pena realçar, mas ainda assim, 1974 foi o ano em que conquistámos a nossa liberdade, amordaçada por quase meio século um Estado “novo” decrépito e injusto, era tempo de berrar por justiça, por sermos diferentes, de gritar por solidariedade, por uma vida melhor e isso exigia agressividade, subversão, simplicidade, que só o punk podia transmitir.

Ser punk, na sociedade atual, tal como em 1974, mais do que uma moda, é a subversão de dizer muito em acordes simples, de acreditar no futuro e gritar alto e em bom som valores sociais, como a liberdade, solidariedade, a igualdade, o desejo de uma sociedade justa, de acreditarmos em nós próprios, na nossa diferença subversiva.

Penso que o Zé Pedro cumpriu tudo isto, com a sua postura, com o seu legado nos Xutos e outros projetos, é uma referência para nós que crescemos a ouvir os seus riff’s, a cantar em uníssono as letras nos concertos, a ouvir os seus programas de rádio, a ler os seus artigos na comunicação social.

Poderão dizer, “os Xustos e Pontapés não poderão continuar sem o Zé Pedro”, mas o Zé Pedro, como verdadeiro punk acreditava e esteve até ao fim, mesmo sentado numa cadeira A coerência da luta exige continuação dos ideais punk, que continuam a ter sentido na sociedade niilista em que vivemos.

O punk continua vivo em Portugal, em bandas de garagem desconhecidas do mainstream musical, em bandas underground por todo o país, está por ai e por aqui.

Viva o Zé Pedro, viva o punk! “Há que violentar o sistema”!

Foto: concerto mítico de Ratos do Porão, Incrível Almadense, 1992. Foto com direitos de autos, retirada daqui

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Chamar a chuva

Já pinga, os pingos tornam-se mais fortes e transformam-se em chuva, que limpa o medo que se cola ao corpo, como o suor peganhento e sujo de um Verão doente e fora de tempo.

Mas, a chuva foi-se, de mansinho, tal como chegou. No ar ficou o aroma da terra cansada pela secura, que por breves instantes conseguiu libertar-se da seca que a torna estéril. Foram só instantes, pouco depois o cheiro da cinza juntou-se ao da terra e voltou a seca. Será que a chuva regressa?

Portugal está em “situação de seca severa desde 30 de junho de 2017, um fenómeno climático adverso, com impacto sobre a agricultura, sobre a saúde e maior risco de propagação de incêndios.

O valor médio da quantidade de precipitação no ano hidrológico 2016/2017, entre 1 de outubro de 2016 a 15 de setembro de 2017, foi de 620,5 mm, correspondendo a 70 % do valor normal. Em relação ao final de agosto, o teor de água no solo diminuiu em
quase todo o território, em particular nas regiões a sul do Tejo, com valores inferiores a 20 %.

No final da primeira quinzena de setembro e comparativamente ao último dia do mês anterior verificou-se uma descida no volume armazenado em todas as bacias hidrográficas monitorizadas. Das 61 albufeiras monitorizadas, 4 apresentavam disponibilidades hídricas superiores a 80% do volume total (9 em 31 de agosto) e 22 têm
disponibilidades inferiores a 40% do volume total (22 em 31 de agosto).

As albufeiras que no final da primeira quinzena de setembro apresentavam volumes totais inferiores a 40%, correspondiam a cerca de 35% do universo das albufeiras monitorizadas e localizavam-se:
– 10 na bacia do Sado (Alvito [33%], Fonte Serne [29%], Monte Gato [10%], Odivelas [25%], Pego do Altar [9%], Roxo [16%], Vale do Gaio [14%], Campilhas [4%], Monte Miguéis [12%] e Monte da Rocha [9%]),
– 3 na bacia do Tejo (Divor [9%], Magos [34%] Maranhão [26%],
– 4 na bacia do Guadiana (Vigia [10%], Caia [21%], Lucefecit [24%], Abrilongo [17%]),
– 2 na bacia do Mondego (Fronhas [24%], Vale do Rossim [36%]),
– 2 na bacia do Douro (Vilar Tabuaço [37%] e Serra Serrada [29%]),
– 1 nas bacias das Ribeiras do Algarve (Arade [27%].

A situação na bacia do Sado continua a ser a mais preocupante, pois, apesar do reforço recebido através do Alqueva, a percentagem do volume total armazenado nesta bacia estava abaixo dos 20% em finais de agosto de 2017 e na primeira quinzena de setembro ainda baixou mais. Na figura seguinte é possível observar o afastamento significativo
da evolução do armazenamento na bacia do Sado registado entre outubro de 2015 e a primeira quinzena de setembro de 2017, quando comparados com os valores médios dos últimos 25 anos.

Na zona da Península de Setúbal apenas as searas onde foi possível efetuar alguma rega concluíram o ciclo produtivo, pelo que, comparativamente à campanha anterior as produtividades registaram quebra significativa e a qualidade também foi fraca. No resto da região as searas de sequeiro, devido às condições de seca, tiveram um
deficiente enchimento do grão, o que afetou a produção e a qualidade do grão (pesos específicos baixos);
No Alentejo, de uma forma global, as produtividades médias obtidas foram inferiores às registadas no ano anterior, com quebras que variam entre os 10% e os 40%, salientando-se uma maior quebra de produção na área geográfica do Norte Alentejano. No Baixo Alentejo os cereais de sequeiro tiveram quebras de 25 a -30%;”

Fonte: Relatório do Grupo de Trabalho (GT) de assessoria técnica à Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca – Monitorização Agrometeorológica e Hidrológica, setembro de 2017.

Grande parte da população (principalmente a urbana) vive alheia (pelos vistos, também os nossos governantes) e o cenário de seca tende a agravar-se, se continuar o Verão de sequeiro. Há que planear alternativas, prevenir riscos, adaptar os planos de contingência e os recursos às alterações do clima, mudar hábitos de consumo de água.

Há que enfrentar e Chamar a Chuva!

Imagem: Latuka Tribe Rain Making Ceremony, Sudan; © George Rodger
https://www.icp.org/browse/archive/objects/latuka-tribe-rain-making-ceremony-sudan

 

Enquanto tomo café

O autocarro vai cheio e o meu olhar prende-se no olhar vazio ou adormecido de uma mulher que vai à janela, no que pensará? No trabalho que se aproxima? Na procura de trabalho? Nas compras que tem de fazer no final do dia, antes de chegar a casa? Nos filhos, terão chegado bem à escola? Ou, simplesmente não pensava em nada e deixava-se levar, embalada pelo movimento do autocarro? No banco de trás duas mulheres pareciam conversar animadamente e talvez ruidosamente, no meio de um grande ramo de flores, que parecia querer engolir todos à volta. Outras pessoas pareciam seguir ocupadas ouvindo música, espreitando as redes sociais no telemóvel, lendo ou simplesmente, não fazendo nada.

Começo a tomar atenção à conversa entre a empregada de balcão e uma cliente que chegou entretanto. “Ontem depois de sair daqui fiquei uma hora no comboio. Parece que uma pessoa saltou da ponte, para a linha do comboio, ali perto de Moscavide”. “Que triste. Quando uma pessoa chega a esse ponto, é muito triste”, comentou a cliente, enquanto bebia o café e comia o pastel de nata.

Que estranho, a manhã está fria, devia ter trazido um casaco”, pensei, como se acordasse, instantes antes de pagar, sair do café e subir a rua para o trabalho. No caminho, reparo na montra poeirenta de uma pequena loja de brique-a-braque, que teima em resistir e num grupo de pessoas, no outro lado da rua, vestindo farda de escritório, fumando e bebendo café de pequenos copos de plástico.

Ilustração: Mona Edulesco, “Woman at window

No rescaldo das autárquicas 2017

Depois da eleição, uma conclusão. É o povo (ou a abstenção) quem mais ordena.

Uma certeza. O ciclo eleitoral autárquico terminou e é na gestão quotidiana das nossas freguesias e concelhos que vemos quem são os autarcas competentes, que trabalham para darem melhores condições de vida aos cidadãos e quem são os outros (ou outras) …

Votei na minha autarquia, em Setúbal e estou sinceramente preocupada com o resultado absoluto obtido pela candidata da CDU, Maria das Dores Meira. Sobretudo, preocupada com o tipo de desenvolvimento turístico, económico e social que a mesma parece defender, em parceria com o todo poderoso Porto de Setúbal e alguns investidores chineses, para a zona ribeirinha da cidade, transformando-a no resort de luxo, sem atender às especificidades da comunidade envolvente.

Em Lisboa, começam a haver ecos de um desenvolvimento turístico desregulado nas zonas históricas, invadidas por milhares de turistas de cruzeiro à procura do “very tipical“. O direito à habitação nestas zonas está ameaçado pelo avolumar dos preços das casas e das rendas, pela falta de condições de outras, pela exploração turística. Turismo sim, mas regulado e sustentável. Vamos ver o que virá nos próximos quatro anos.

Um sentimento. No dia das eleições, pela hora de almoço, oiço a candidata do PSD defender o voto das mulheres, dando o exemplo das sufragistas que tanto lutaram para que a mulher pudesse expressar livremente a sua vontade politica.

Concordei, foi uma declaração diferente, no meio das declarações habituais de circunstância que apelam, de forma mais ou menos sincera, ao voto. Mas, no final fiquei triste, sobretudo pela forma como esta candidata parece ter sido voluntariamente instrumentalizada pelo seu partido, carne para canhão lançada pelo presidente do seu Partido, pela suposta obrigatoriedade de assumir a responsabilidade por uma perda que não era só dela. Somos mais do que isto e temos de lutar por ser mais do que isto.

 

mulher
EUA, anos 60 e 70; ativistas em luta por direitos iguais Fonte: http://edition.cnn.com/2015/07/22/living/the-seventies-feminism-womens-lib/index.html

O meu pequeno lobo

Ontem no final no final do dia, o meu pequeno podengo de um ano ia sendo atropelado, ao escapar-se diretamente para a estrada. Foi por uma margem muito pequena que escapou de um camião que ia nesse momento a passar.

Não demonstra medo e dirige-se impetuosamente para os veículos, ladrando ruidosamente. Como é pequeno, com o pêlo castanho claro e muito rápido, torna tudo mais imprevisível e há o risco de os condutores não se aperceberem da sua presença e ser atropelado.

O que fazer nesta situação? Fiquei completamente em pânico, não sabia o que fazer, porque o pequeno não me obedecia, transtornado que estava com o trânsito, gritei tanto, mas tanto, aflita, chamando-o a mim. A vizinha do lado, também ela dona de duas cadelas, ouviu o meu pranto, saltou o muro aflita e entre as duas fomos parando o trânsito, até finalmente conseguir segurar o meu pequeno pela coleira e arrastá-lo para casa. Também poderia ter acontecido com uma das suas cadelas.

A relação que se cria entre dono e cão é realmente especial e já em casa, pensando no que seria se o pior tivesse realmente acontecido, sentia um aperto no estômago (que custa a passar), um aperto do amor que tenho a este pequeno diabrete. Ainda existem finais felizes e um anjo da guarda a olhar pelo meu pequeno.