José Afonso

Conto sempre esta história neste dia.

José Afonso morreu em 23 de fevereiro de 1987. Lembro-me de de ter partilhado com o meu pai a sua morte, ao irmos os dois ao velório que decorria na Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal, a antiga Escola Comercial. Eu tinha só 12 anos, estava a poucos dias de partir para uma viagem ao Walt Disney World, mas o meu pai achou importante levar-me até lá.

Tudo me parecia um bocado estranho, ver uma roda de pessoas em silêncio a andar à volta do local onde estava Zeca, muitas delas empunhando com orgulho cravos vermelhos. Mas, apesar da idade e de a minha cabeça já estar com o Donald e o Pateta, senti um arrepio e continuo a sentir sempre que me recordo deste dia, sempre que oiço a música de Zeca, sempre que penso no que acabou por representar para toda uma geração.

Acho que faz sentido continuar a contá-la, sempre.

Preocupações num dia de chuva

Há coisas que me preocupam profundamente.

A quantidade de papel que existe na rua:

Adotem um cão, levem-no a passear à rua e ficarão abismados com a quantidade de guardanapos, recibos, faturas, sacos de papel, beatas e caixas de de cigarros, tudo pronto a cheirar e a comer pelo cão. Já pensaram na quantidade de papel que acumulamos diariamente? Vamos a um supermercado e recebemos, no mínimo, três papeis diferentes com o pagamento da conta. Passamos uma portagem, e temos logo o recibo à nossa mão. Para quê? Não vivemos afinal no país do e-fatura?

Outro problema são os pombos:

Desde que tenho a responsabilidade de assegurar os passeios do meu podengo, constato que as nossas cidades estão cheias de pombos, para grande gáudio dele. Inclusivamente, num dos nossos passeios,  descobrimos um senhor que tem um pombal no quintal de casa. Claro que já se tornou paragem obrigatória para o meu podengo (não fosse ele cão de caça) e até já conhecemos o dono do pombal, que nos cumprimentou, vestido como um cientista louco, com as suas luvas de latex e proteção no nariz.

A chuva:

Porque o chão fica escorregadio e posso esbarlhadar-me no meio da calçada. Tenho que transportar um acessório extra, o emplastro do guarda chuva (quando não o perco e fico com os caracóis em estilo carapinha); arrisco a molhar os pés, por não ter umas galochas em condições. Sabem? umas daquelas super chiques, como se chamam mesmo? Tornar-me subitamente invisível para os outros peões e levar com uma vareta nos olhos ou então tomar um valente banho de água preta do esgoto, enquanto espero nos semáforos.

A falta de espaços para cães nas nossas cidades:

Na cidade de Almada, no Parque da Paz, existe um parque para canídeos e é uma maravilha, para o meu podengo poder brincar com os seus amiguinhos de quatro patas e correr, correr, correr. Não é muito grande, podia ser um pouco maior, mas tem condições: bancos para os donos, baldes do lixo e bebedouros de água para os animais. Precisamos de muitos mais espaços como este nos nossos centros urbanos.

Atenção às vias pedonais:

Este fim-de-semana fiz a primeira cãominhada com o meu podengo pela zona ribeirinha de Lisboa, entre o Cais do Sodré e o Padrão dos Descobrimentos. Correu muito bem, mas tenho a apontar negativamente a atitude dominante dos ciclistas e dos “runners” que por ali circulam, tanto faz que seja à direita, à esquerda, à margem ou por cima de nós. As vias pedonais são de todos, não são autoestradas ou circuitos de atletismo.

Precisamos de liderança, boa liderança:

É uma constatação geral, para várias áreas da nossa sociedade, precisamos de lideres que o saibam ser, que tenham a humildade de reconhecer ser apenas mais uma peça do todo, mas com a especial capacidade para estarem disponiveis, ouvir, decidir quando têm que decidir, compartilhar experiências, decisões, saber delegar, levar mais além cada um dos elementos do todo. Ser humilde, com os pés bem assentes no chão, é uma qualidade de um verdadeiro líder.

As rotundas:

Serei só eu que não atino com a nova regra de circulação nas rotundas? Por mais que tente, para mim não faz sentido!

Sôtora … Está muito bem conservada!

Depois de dias seguidos a almoçar no refeitório do trabalho resolvi tirar uma folga e almoçar num espaço comercial próximo, a habitual salada. Sento-me numa mesa vaga em frente a um senhor que também ali comia a sua sopa.

Inicio a refeição, dou uma vista de olhos às aplicações do telemóvel e e-mail e de repente o senhor que estava à minha frente pergunta, “é alentejana?”. Olho surpreendida no meio de uma garfada de alface e respondo, “não, mas tenho familiares alentejanos”. “Eh pa, eu sabia, você tem pinta de alentejana” contrapõe o senhor, a que respondo com um sorriso, enquanto tento comer algumas bolas de queijo mozzarella, sem saber o que é exactamente ter pinta de alentejana.

“Acabei agora mesmo de comer uma sopa de peixe, estava boa, mas muito quente, estou aqui todo afogueado”, justificando a face corada. Não sabia o que responder a tal confissão, pelo que disse apenas, “ah sim? é sinal que a sopa estava boa”.

Fez-se silêncio, “até que enfim”, pensei.

Nada disso, pouco depois o senhor voltou a falar “trabalha em quê? Vamos fazer um jogo, para animar o almoço. É enfermeira? médica? É jornalista!

Respondo, por entre meio de mais uma garfada de alface e devolvo a pergunta. “Sou engenheiro zootécnico, vim a Lisboa a uma reunião, mas se não estivesse aqui estaria no Alentejo, na matança do porco!” Trabalho numa herdade, perto de Mértola”. 

Coloco uma garfada de tomate na boca e oiço “Já terminaram os saldos?”

“Penso que não”, respondo apressadamente, tentando despachar-me para sair dali rápido. “Vou aproveitar o intervalo da reunião para ver montras.”, responde o senhor, “no Alentejo não temos grandes oportunidades”.

Silêncio. “A vida está tão dificil … mas você ainda é nova”, voltou a dizer o meu companheiro de almoço. “Nem por isso”, respondo.

“Ha! mas a sôtora está muito bem conservada! E a mim, quantos anos dá?”

“Até que enfim, estou quase a terminar a salada”, pensava eu. Respondo dizendo que lhe dava uns 55 anos.

“Eh pa, você não é nada meiga, só tenho 52 anos”, disse o senhor com um sorriso “amarelo”. Desculpei-me pelo lapso, despediu-se e lá foi, ver as montras.

Silêncio.

 

Obrigatoriedade de ajudar

Não gosto quando confundem disponibilidade para ajudar com obrigatoriedade de ajudar.

As organizações, as empresas, são feitas de regras, procedimentos e não gosto que a “disponibilidade” obrigatória passe a ser a regra e mais do que isso, que seja uma forma de dar a volta à regra, transformando-a numa farsa.

Não gosto de dizer sim, quando a palavra é não.

Não gosto de ser obrigada a nada e afirmo isso, alto e bom som, para quem queira e não queira ouvir.

Não gosto quando sinto que aquilo em que acredito é afinal uma farsa.

Vou passear o cão

São 7h25m da manhã e saímos apressadamente para a rua para o nosso passeio matinal. Logo à saída do prédio encontramos o Golias, um companheiro grande, muito grande, provavelmente da raça alemã Weimaraner, que pachorrentamente passeia com a dona, embrulhada até às pontas dos cabelos num forte casaco, cachecol e gorro. Está muito frio, é inverno.

Tento conter a excitação do meu podengo perante a expectativa de cheirar e brincar com o seu novo amigo durante horas, mesmo que seja três vezes o seu tamanho. Cheira, salta, ladra, recebe algumas festas e carinhos da dona do Golias, trocamos alguns dedos de conversa e seguimos em frente com o nosso passeio. O Golias manteve-se sempre imperturbável, majestoso no seu porte senhorial.

Andamos mais um pouco e ao longe vêm um pequeno caniche castanho, quase não se consegue ver, por ser tão pequeno e  não se distinguir na calçada. Mas o meu podengo viu a metros de distância e puxa a trela como se dissesse, olha dona, vêm ai outro para brincar, vamos! O problema é que o Lucky, o nome do caniche, é muito temperamental, não gosta de brincadeira e ladra furiosamente, o que não impede o meu podengo de tentar uma aproximação. A dona, nervosa como o caniche, resolve a questão dizendo “o seu podengo é muito querido, mas o Lucky não gosta de cães, só de humanos”. Ok, não há nada a fazer, puxo pela trela e continuamos o nosso caminho.

Entretanto chegamos à rua onde está o café do bairro. Como sempre, o meu podengo entra na rua, cheira o ambiente, localiza-se geograficamente e começa a puxar a trela correndo como um louco em direção ao café (arrastando a dona) e a uma prometida sessão de festas do dono do café. Já são bons amigos.

Passamos pela entrada da escola em hora de entrada para as aulas. O meu podengo fica maravilhado com as crianças. Salta, puxa pela trela tentando chamar a atenção para receber mais festas, para além daquelas que já recebe da dona de cinco em cinco minutos.

Chegámos ao parque. O dog park hoje está concorrido, com alguns cães grandes. O meu podengo é recebido pelos companheiro, ansiosos por mais um para correr e cheirar, a excitação é muita e é difícil de controlar, mas eles lá têm as suas regras, não devo interferir ou tentar protegê-lo, apesar de ainda ter só seis meses, apenas ter atenção. Entretanto, chega a Bianca, uma cadelinha cor de caramelo, com uma coleira cor de rosa fashion. É uma cadelinha pequena, mas que em energia vale por três grandes.

“Olá gostei de ti, és gira, como te chamas? Queres jogar à apanhada?!” pensou o meu podengo e começou a corrida com a Bianca. No meio daquela balburdia de quatro patas andava um pequeno cachorro pugg, minúsculo. “Ele ainda não percebeu bem o que é ser um cão..” dizia o dono com alguma mágoa “gosta muito de pessoas e de gatos, mas cães ainda não compreende. E também gosta de comida!” Entra uma pessoa com um saco de biscoitos na mão, e o pequeno pugg passa a ser a sombra dos biscoitos. Está a ver? Já tem outro dono..” reclamava o dono real.

Damos uma volta pelo parque, mas o meu podengo acha os caminhos de alcatrão monótonos e acabamos num trail pelo mato. Salta, rebola-se nas malvas, cheira as azedas que já dão um prenúncio da primavera. No caminho para casa passamos perto da churrasqueira e à porta do prédio está um pit bull, mais o dono, vaidoso da sua posse. O meu podengo não olha a raças e quer brincar, ladra e quando ladra, todos o ouvem e bem, tem um som rouco, forte. O pit bull estava nervoso, não ladrou.

“Cala-te pá” gritava o dono do pit bull para o meu podengo, em tom jocoso. Ninguém manda calar o meu podengo, apenas eu! Voltámos a casa.

Entretanto, algum tempo depois encontro uma senhora à entrada do prédio, que reconhece o meu podengo e lhe dá festas. Não sei quem é. Só algum tempo depois percebo que era a dona do Golias.

Pablo Podengo Picasso, é o seu nome.