Gelado de iogurte


A ação passa-se na zona de restauração de um movimentado centro comercial, em plena hora de almoço. Sento-me num corredor de mesas onde está sentada uma senhora, já idosa. Alguns minutos depois chega um jovem, gordo, carregando na mão, com um ar feliz, um copinho de gelado.

Tenta sentar-se ao lado da senhora idosa, que lhe diz estar ali a filha, “mas não se preocupe, passo já a mala dela para o lugar da frente e assim já se pode sentar”. O rapaz, esboça um sorriso e lá se senta, ao lado da senhora idosa.

O gelado chama por ele, mergulha ansiosamente a colher no seu interior, já um pouco mole, roda-a levemente e levanta-a em direção à boca. Quando se prepara para saborear tamanha tentação, diz a senhora idosa, olhando o jovem com curiosidade “você é um rapaz gordo. O que é isso que vai comer?

“Sim, estou um pouco gordo”, diz descontraidamente o jovem, “é um gelado de iogurte”, sorri e olha ansiosamente para o branco do gelado a derreter sobre a colher e o copo, por ação do caramelo, “tem tão bom aspecto, vai saber tão bem …” pensa.

Mas, o momento de deleite durou muito pouco, porque precisamente na altura em que ia levar a colher à boca a senhora idosa voltou a falar: “… de iogurte?! Tem bom aspecto sim, mas vai almoçar isso?”Não, já almocei, esta é a minha sobremesa. Tenho direito a uma boa sobremesa”, respondeu o jovem.

“Então o que faz? Trabalha aqui perto?” perguntou a senhora idosa, sem reparar na colher de gelado suspensa no ar, aguardando a primeira oportunidade de ser saboreada.

“Bem, acho que devia ter ido para outro lugar”, pensou o jovem. Mas, manteve o sorriso e disse descontraidamente, “não, ainda sou estudante, estudo arquitectura na Universidade Lusíada”. Será desta? pensou ele.

Não, não foi, porque logo depois respondeu a senhora, “arquitectura? O meu neto também estuda arquitectura, deve ser um curso dificil, com muita aritmética.”

O jovem parece ter desistido, posou a colher de gelado para continuar a conversa. “Sim, tem alguma aritmética, mas também muita história, estava à espera de ser só desenhar, mas não”.

Por esta altura, o gelado já se encontrava a derreter para fora do copo e o jovem ainda não tinha conseguido comer uma única colher de gelado. A conversa continuou, a senhora idosa passou de seguida a contar os bons momentos de professora primária, das dificuldades profissionais que enfrentam os jovens arquitectos, dos fracos salários …

Ao fim de algum tempo, já com o gelado praticamente em estado liquido, o jovem acabou por conseguir prová-lo, e a sua expressão foi de temporário alheamento, de suspensão espácio-temporal, como se tivesse mergulhado dentro daquele copo tão desejado e não houvesse mais nada em redor.

“Quero uma sobremesa como esta!” Afirmou a senhora idosa para a filha. Durante toda a conversa, manteve o gelado debaixo de vista. O jovem, esse, já nem ouviu, tratou de comer o gelado rapidamente, antes que desaparecesse.

Anúncios

Autor: Carla Espada

Sou uma pessoa observadora, curiosa com o que se passa à sua volta

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s