Memórias de Adriano


Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvem neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta escravidão do espírito ou da imaginação (…)

A condição das mulheres é determinada por estranhos costumes são ao mesmo tempo dominadas e protegidas, fracas e poderosas, excessivamente desprezadas e excessivamente respeitadas (…)

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm

Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres (…)

Fica tudo por fazer. Os meus domínios africanos (…) devem tornar-se um modelo de exploração agrícola; os camponeses da aldeia de Borístenes (…) têm direito ao auxilio depois de um inverno penoso (…)

Durante certos períodos da minha vida anotei os meus sonhos: discutia a sua significação com os padres, os filósofos, os astrólogos. Esta faculdade de sonhar, amortecida desde há anos, foi-me restituída durante estes meses de agonia; os incidentes do estado de vigília parecem menos reais, por vezes menos importantes que aqueles sonhos (…)

Procuremos entrar na morte de olhos abertos. 

Excertos de “As memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar

Já passaram alguns meses desde que terminei de ler este livro, mas ficou guardado para partilhar aqui algumas das suas passagens.

Não é um livro fácil de ler, deve-se ler lentamente, como a vida do imperador romano, ali imortalizada para o seu sucessor, Marco Aurélio.

Guardei o retrato de um estadista único, à frente do seu e do nosso tempo, um estadista lúcido, lúcido até na morte, humilde,  mas confiante no rumo ético que traçou, racional e emocional ao mesmo tempo, um defensor do papel da mulher na sociedade. Leiam!

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Autor: Carla Espada

Sou uma pessoa observadora, curiosa com o que se passa à sua volta

2 thoughts on “Memórias de Adriano”

  1. Também foi um dos livros que mais me agradou ler. Talvez porque produza no leitor a sensação que um imperador pode ser iluminado e eclético. As “memórias” são aliás uma carta ao seu sucessor, um imperador-filósofo. A Yourcenar encontrou uma forma de escrever um tratado sobre uma dominação suave, mas eficaz – um “bellum sine bello”, traduzindo “Uma guerra sem combate”, que como todos os outros conceitos humanos é relativo, não deixando de ser sedutor. Gostei bastante dos extratos que reproduziu. E faço a pergunta: O que será mais propício à vida ? A satisfação ou a liberdade ? Quando à escravidão do espírito – abordada nos extratos – quando não tomada de livre arbítrio, acho-a simplesmente mortal. Acho sinceramente melhor deixarmo-nos submeter conscientemente a nossa vontade a uma estrutura espiritual que valha para nós a pena, do que julgarmo-nos livres, o que é quase ridículo. Acho que a personagem Adriano escolheu muito bem essa estrutura, o “helenismo”. Ele que era tão poderoso que até escolheu a sua morte. Esse helenismo que mais tarde veio a resultar na criação do cristianismo, pois foi no mundo helénico (“gentios” para os Judeus) que esta religião se iniciou. São Paulo(Saulo) era um rabino grego que conseguiu levantar uma corrente teológica e estruturar uma organização antes de conhecer os evangelhos. Aliás chegou mesmo a discutir a natureza “Universal” do cristianismo com Pedro, que desejava que esta nova fé apenas fosse professada pelos judeus.

    Nota: Jesus pregou mesmo – e terá feito para os crentes – a “Guerra sem Guerra”. A mesma guerra de Ghandi ou da “desobidiência cívil” do Thoreau: A guerra das consciências.

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    1. Procurando responder à pergunta, diria que a vida é curta, intensa naquilo que conhecemos e desconhecemos, no que dominamos e nos escapa e só vale mesmo a pena se cumprirmos o propósito de sermos nós. Essa é de facto a verdadeira liberdade, liberdade e satisfação (da nossa consciência). O Imperador, no relato de Yourcenar, cumpriu essa missão.

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