Mala Vazia


(Mala vazia, objectos espalhados pelo chão)

Nur – O que vais pedir hoje a Deus, Zafaran?

Zafaran – Que perdoe os meus pecados e os pecados dos meus pais, irmãos e irmãs e de todos as pessoas do Norte, Sul, Leste e Oeste.

Nur – Quais são os teus pecados?

Zafaran – Não sei.

Nur – O que gostavas de pedir a Deus?

Zafaran – Que pergunta tão estranha.

Nur – Qual é o teu maior desejo?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Imagina que podias pedir uma coisa e que ela te era concedida: um brinquedo, uma casa, um carro?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Não tens um desejo, Zafaran?

Zafaran – O que é um desejo?

A casa para onde nos mandaram era uma barraca velha, construída na parte de fora de uma casa de cimento.

As portas de madeira estavam velhas e descoloradas e havia uma janela que nunca foi aberta.

O tecto era feito de folhas de papelão.

Em cada um dos melhores quartos havia uma cama de base metálica, já oxidada.

Os seus colchões manchados estavam rotos e já meio vazios.

Nur – Gosto de brincar com as minhas bonecas, que ficaram debaixo da casa destruída pelos bulldozer’s.

Zafaran – Há 10 anos que não sei nada de Nur. Só a vi uma vez.

Não estivemos um único segundo a sós, mas falámos um com o outro. Olhos nos Olhos. Olhos que nunca antes se tinham cruzado. Os dela eram castanhos, pareceu-me no escuro da sala de aula.

Talvez tenha morrido, talvez tenha conseguido sair, tenha conseguido estudar.

Saudades não pagam dividas!

Nur – Regressar? O país ainda não está preparado.

A única coisa que me pode fazer mudar de ideias é o clima, mas estou a habituar-me à chuva.

Zafaran – Fizeram-me várias entrevistas. Sempre as mesmas perguntas sobre a minha família, os problemas na minha terra e como tinha chegado.

Para ti, que me interrogas, fica sabendo que antes a minha casa era rica de tão honrada e se aqui estou é porque os Deuses assim o determinaram.

Nur – Disseste que gostavas do meu instinto vagabundo. Mas, não acreditas que é ao deixar este país que aprendo a amá-lo melhor. É importante ter um país quando se viaja.

Zafaran – Não tenho passaporte. O meu país é cada pedaço de terra por baixo dos meus pés.

Nur – O que esperas deste país?

Zafaran – Ter um tecto para dormir e dinheiro suficiente para comer

Nur – Não é tão fácil como esperava, quando passei o arame que separa o rio grande.

Pensava que era só uma questão de chegar, trabalhar e regressar um dia à minha aldeia, num carro luxuoso ou levando uma prova do meu esforço.

Zafaran – Porque ficas?

Nur – Quero viver a vida! Sem bulldozer’s.

Se pudesses, voltavas?

Zafaran – (Volta ligeiramente a cabeça para o lado, mirando-a directamente nos olhos).

Preciso de sentir o que é um desejo.

(Desfazer a mala)

—————————————–

Texto em construção …

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Autor: Carla Espada

Sou uma pessoa observadora, curiosa com o que se passa à sua volta

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