Desperdício alimentar

Hora de almoço, numa conhecida loja especializada em sandes:

A cliente estava na fila, aguardando a sua sanduíche. Os olhos estavam fixos no  telemóvel, apenas os dedos se moviam, percorrendo as app’s.

De repente, a cliente levanta a a cabeça, olha para o empregado de balcão e diz, “não quero esta sanduíche, está tostada, dê-me outra se faz favor”, A atitude é afirmativa, sem pestanejar.

“Mas, estas sandes são tostadas”, respondeu o empregado. “Costumo comer esta sanduíche e não é tostada, quero outra”, retorquiu a cliente. E, sem pensar mais no assunto, baixou novamente os olhos para o telemóvel.

A sanduíche voltou para a cozinha. “A cliente não gosta tostada”, avisou o empregado.


Serei só eu a pensar que há algo de errado? Desperdiçou-se uma sanduíche, apenas por estar tostada.

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Mala Vazia

(Mala vazia, objectos espalhados pelo chão)

Nur – O que vais pedir hoje a Deus, Zafaran?

Zafaran – Que perdoe os meus pecados e os pecados dos meus pais, irmãos e irmãs e de todos as pessoas do Norte, Sul, Leste e Oeste.

Nur – Quais são os teus pecados?

Zafaran – Não sei.

Nur – O que gostavas de pedir a Deus?

Zafaran – Que pergunta tão estranha.

Nur – Qual é o teu maior desejo?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Imagina que podias pedir uma coisa e que ela te era concedida: um brinquedo, uma casa, um carro?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Não tens um desejo, Zafaran?

Zafaran – O que é um desejo?

A casa para onde nos mandaram era uma barraca velha, construída na parte de fora de uma casa de cimento.

As portas de madeira estavam velhas e descoloradas e havia uma janela que nunca foi aberta.

O tecto era feito de folhas de papelão.

Em cada um dos melhores quartos havia uma cama de base metálica, já oxidada.

Os seus colchões manchados estavam rotos e já meio vazios.

Nur – Gosto de brincar com as minhas bonecas, que ficaram debaixo da casa destruída pelos bulldozer’s.

Zafaran – Há 10 anos que não sei nada de Nur. Só a vi uma vez.

Não estivemos um único segundo a sós, mas falámos um com o outro. Olhos nos Olhos. Olhos que nunca antes se tinham cruzado. Os dela eram castanhos, pareceu-me no escuro da sala de aula.

Talvez tenha morrido, talvez tenha conseguido sair, tenha conseguido estudar.

Saudades não pagam dividas!

Nur – Regressar? O país ainda não está preparado.

A única coisa que me pode fazer mudar de ideias é o clima, mas estou a habituar-me à chuva.

Zafaran – Fizeram-me várias entrevistas. Sempre as mesmas perguntas sobre a minha família, os problemas na minha terra e como tinha chegado.

Para ti, que me interrogas, fica sabendo que antes a minha casa era rica de tão honrada e se aqui estou é porque os Deuses assim o determinaram.

Nur – Disseste que gostavas do meu instinto vagabundo. Mas, não acreditas que é ao deixar este país que aprendo a amá-lo melhor. É importante ter um país quando se viaja.

Zafaran – Não tenho passaporte. O meu país é cada pedaço de terra por baixo dos meus pés.

Nur – O que esperas deste país?

Zafaran – Ter um tecto para dormir e dinheiro suficiente para comer

Nur – Não é tão fácil como esperava, quando passei o arame que separa o rio grande.

Pensava que era só uma questão de chegar, trabalhar e regressar um dia à minha aldeia, num carro luxuoso ou levando uma prova do meu esforço.

Zafaran – Porque ficas?

Nur – Quero viver a vida! Sem bulldozer’s.

Se pudesses, voltavas?

Zafaran – (Volta ligeiramente a cabeça para o lado, mirando-a directamente nos olhos).

Preciso de sentir o que é um desejo.

(Desfazer a mala)

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Texto em construção …

Ao Zé Pedro e ao Punk

Originalmente, o punk surgiu nos Estados Unidos da América, por volta de 1974, como uma manifestação cultural da insatisfação social juvenil. Os míticos e ainda tão presentes Ramones, foram a primeira referência, dando caminho a outros, como os Sex Pistols, os mais recentes Offspring e, em Portugal, destaco os Censurados, os Tara Perdida, Mata Ratos, Ratos do Porão, Ku de Judas, Peste e Sida, Xutos e Pontapés de Zé Pedro.

Penso que não vale a pena realçar, mas ainda assim, 1974 foi o ano em que conquistámos a nossa liberdade, amordaçada por quase meio século um Estado “novo” decrépito e injusto, era tempo de berrar por justiça, por sermos diferentes, de gritar por solidariedade, por uma vida melhor e isso exigia agressividade, subversão, simplicidade, que só o punk podia transmitir.

Ser punk, na sociedade atual, tal como em 1974, mais do que uma moda, é a subversão de dizer muito em acordes simples, de acreditar no futuro e gritar alto e em bom som valores sociais, como a liberdade, solidariedade, a igualdade, o desejo de uma sociedade justa, de acreditarmos em nós próprios, na nossa diferença subversiva.

Penso que o Zé Pedro cumpriu tudo isto, com a sua postura, com o seu legado nos Xutos e outros projetos, é uma referência para nós que crescemos a ouvir os seus riff’s, a cantar em uníssono as letras nos concertos, a ouvir os seus programas de rádio, a ler os seus artigos na comunicação social.

Poderão dizer, “os Xustos e Pontapés não poderão continuar sem o Zé Pedro”, mas o Zé Pedro, como verdadeiro punk acreditava e esteve até ao fim, mesmo sentado numa cadeira A coerência da luta exige continuação dos ideais punk, que continuam a ter sentido na sociedade niilista em que vivemos.

O punk continua vivo em Portugal, em bandas de garagem desconhecidas do mainstream musical, em bandas underground por todo o país, está por ai e por aqui.

Viva o Zé Pedro, viva o punk! “Há que violentar o sistema”!

Foto: concerto mítico de Ratos do Porão, Incrível Almadense, 1992. Foto com direitos de autos, retirada daqui

Enquanto tomo café

O autocarro vai cheio e o meu olhar prende-se no olhar vazio ou adormecido de uma mulher que vai à janela, no que pensará? No trabalho que se aproxima? Na procura de trabalho? Nas compras que tem de fazer no final do dia, antes de chegar a casa? Nos filhos, terão chegado bem à escola? Ou, simplesmente não pensava em nada e deixava-se levar, embalada pelo movimento do autocarro? No banco de trás duas mulheres pareciam conversar animadamente e talvez ruidosamente, no meio de um grande ramo de flores, que parecia querer engolir todos à volta. Outras pessoas pareciam seguir ocupadas ouvindo música, espreitando as redes sociais no telemóvel, lendo ou simplesmente, não fazendo nada.

Começo a tomar atenção à conversa entre a empregada de balcão e uma cliente que chegou entretanto. “Ontem depois de sair daqui fiquei uma hora no comboio. Parece que uma pessoa saltou da ponte, para a linha do comboio, ali perto de Moscavide”. “Que triste. Quando uma pessoa chega a esse ponto, é muito triste”, comentou a cliente, enquanto bebia o café e comia o pastel de nata.

Que estranho, a manhã está fria, devia ter trazido um casaco”, pensei, como se acordasse, instantes antes de pagar, sair do café e subir a rua para o trabalho. No caminho, reparo na montra poeirenta de uma pequena loja de brique-a-braque, que teima em resistir e num grupo de pessoas, no outro lado da rua, vestindo farda de escritório, fumando e bebendo café de pequenos copos de plástico.

Ilustração: Mona Edulesco, “Woman at window

O meu pequeno lobo

Ontem no final no final do dia, o meu pequeno podengo de um ano ia sendo atropelado, ao escapar-se diretamente para a estrada. Foi por uma margem muito pequena que escapou de um camião que ia nesse momento a passar.

Não demonstra medo e dirige-se impetuosamente para os veículos, ladrando ruidosamente. Como é pequeno, com o pêlo castanho claro e muito rápido, torna tudo mais imprevisível e há o risco de os condutores não se aperceberem da sua presença e ser atropelado.

O que fazer nesta situação? Fiquei completamente em pânico, não sabia o que fazer, porque o pequeno não me obedecia, transtornado que estava com o trânsito, gritei tanto, mas tanto, aflita, chamando-o a mim. A vizinha do lado, também ela dona de duas cadelas, ouviu o meu pranto, saltou o muro aflita e entre as duas fomos parando o trânsito, até finalmente conseguir segurar o meu pequeno pela coleira e arrastá-lo para casa. Também poderia ter acontecido com uma das suas cadelas.

A relação que se cria entre dono e cão é realmente especial e já em casa, pensando no que seria se o pior tivesse realmente acontecido, sentia um aperto no estômago (que custa a passar), um aperto do amor que tenho a este pequeno diabrete. Ainda existem finais felizes e um anjo da guarda a olhar pelo meu pequeno.