Underworld

é raro lembrar-me do que sonho.

Sonhei que mergulhava num mundo aquático, através de um comboio-submarino, que apanhei numa praia algures. Das janelas vi um mundo desconhecido e estranho, com carros antigos submersos e meio enterrados na areia. Não sei para onde ia, os meus olhos moviam-se incessantemente, à velocidade do comboio-submarino, com a urgência de guardar tudo o que passava.

Devo ter dado a volta à Terra, lembro-me de sentir frio e de ver as montanhas e glaciares submersos do arquipélago árctico de Svalbard, onde nunca estive, mas naquele momento sabia exactamente onde estava e pronunciei para mim o nome do arquipélago.

Tenho a certeza de que sai em algum apeadeiro, mas não sei onde.

Nota geográfica e foto (fonte wikipedia):

“O arquipélago SvalbardEsvalbarda[1] ou Esvalbarde[2] é um território ártico norueguês, banhado pelo oceano Glacial Ártico a norte, pelo mar de Barents a leste e pelo mar da Noruega e mar da Gronelândia a oeste. Situado a 560 km a nor-nordeste da costa norueguesa, o território mais próximo é o arquipélago russo da Terra de Francisco José, a leste, seguido da Gronelândia, a oeste. É o ponto da Terra permanentemente habitado mais próximo do Polo Norte.”

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Diário de Estrada de São Miguel (Açores)

O final de janeiro reservou-me um regresso inesperado aos Açores, uma mini visita de três dias à ilha de São Miguel. Partimos num sábado à noite, no último voo para Ponta Delgada.

Ficámos no centro, numa rua junto à Igreja matriz e portas da cidade. Antevemos o pior quando à chegada verificámos que o hotel ficava mesmo ao lado de um dos bares mais movimentados da cidade. Mas, foi mesmo só um susto de sábado à noite. Chegámos perto da meia noite e ainda tivemos tempo para um bom chá quente na esplanada do café central.

No primeiro dia, alugámos um carro e partimos à aventura. De Ponta Delgada fomos em direção a oeste, para a região das Sete Cidades e algumas das lagoas dessa região.

A que mais gostei foi a pequena Lagoa do Canário, acessível a partir de um pequeno trilho pedestre. Está frio e muita humidade, por causa do nevoeiro que chuviscava, mas quando chegámos ao pé da água da lagoa o tempo já estava diferente, mais morno, convidando a ficar por ali mais tempo. A lagoa é o que resta de um antigo vulcão e faz-se sentir o calor da terra, impulsionado pelo nevoeiro, que ora abre, ora cerra.

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Lagoa do Canário

O caminho verdejante era pontuado aqui e ali pelo branco e preto das vacas que pastavam nos campos. Fiquei impressionada com a capacidade de equilíbrio destes animais, pois é possível encontrá-las a pastar nas encostas mais íngremes da ilha, completamente alheias à força da gravidade.

Partimos em direção à Covoada e ao maciço vulcânico das Sete Cidades e suas lagoas: lagoas verde e azul e também a pequena e verdejante lagoa de Santiago, contigua às Sete Cidades.

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Lagoa de Santiago

Não está muito frio e o tempo parece mudar a cada momento, à medida do movimento constante do nevoeiro. As estradas são razoavelmente boas, circundando com muitas curvas os montes e lagoas vulcânicas. O verde da floresta, visto dos miradouros, dá uma impressão aveludada e de tranquilidade à paisagem. Gosto de olhar para a paisagem que se proporciona à minha frente e ver como a terra toca a água da lagoa, docemente. Tudo faz sentido na natureza. O tempo passa devagar, quando se tem tempo e no nosso caso havia muito para ver em tão pouco tempo.

Descemos até Sete Cidades, uma pequena freguesia no interior da caldeira vulcânica. Vale a pena parar junto às margens das lagoas verde e azul e aproveitar o silêncio, ouvir o cantar das aves e observar o movimento dos patos, que parecem dançar aos nossos olhos, para nos deleitarem.

 

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Sete Cidades; Lagoa Verde

Recordo o casario tradicional e sobretudo a Igreja, em estilo neogótico. Não entrámos, passámos por ela no final de uma missa, quando as pessoas passavam pela avenida rodeada de árvores. Não fotografei a igreja e não é preciso, tenho a imagem marcada na minha memória.

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Sete Cidades

Avistámos a icónica vista das lagoas, a partir do Miradouro do Rei. Por trás de nós está a ruína do hotel abandonado “Monte Palace”. Por um lado, o espírito aventureiro convida a subir a escadas do hotel e imaginar como poderia ter sido, mas o bom senso e a sensação de desconforto contraria-nos. Não passámos do vestíbulo de entrada.

Partimos em direção à costa e a paisagem começa a mudar à medida que nos aproximamos da freguesia de Mosteiros. A densidade da floresta é substituída por colinas de prados verdes por onde vão pastando em liberdade as vacas e escarpas íngremes sobre o mar. O piso é irregular, com declives, montes, escarpas, vales, sempre com o mar no horizonte. A atmosfera fica mais leve, sentimos o vento e o cheiro da maresia. De repente, vemos um um arco-íris ligando o mar à terra, iluminando as escarpas escurecidas pelo final de dia.

Mosteiros situa-se na ponta sudoeste da ilha, é uma espécie de grande fajã que se estende sobre o mar. como não podia deixar de ser, a pesca e a agricultura são as atividades económicas principais. As casas são pequenas e algumas bastante coloridas.

Visitámos o porto de pesca, pequeno, onde estavam resguardadas duas ou três embarcações. Possui um edifício para arrumos de pesca, onde dois pescadores alimentavam um amontoado de gaivotas expectantes pelos restos dos peixes que amanhavam.

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Mosteiros

A praia de Mosteiros é uma pérola negra de areia escura e leve, onde desaguam duas ribeiras provenientes das cumeeiras. Era quase pôr-do-sol, deveria ser maré baixa pois o areal estava largo. Brincámos atirando pedras à água. Ao longe, na outra ponta da praia, avistámos um casal que se divertia molhando os pés.

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Mosteiros

Dali, apanhámos a estrada para a Ribeira Grande e passámos pelas Feteiras (o nome tem origem nos muitos fetos que existiam em tempos). A atividade principal é a agricultura e isso nota-se no emparcelamento dos terrenos e das pastagens.

Visitámos o Farol da Ponta da Feteira, pintado de branco e vermelho. Ao lado, observei uma casa de traços modernos, com um pequeno jardim circundante, construída exactamente na ponta da escarpa, voltada directamente para o mar. Como serão os dias de tempestade? A arquitectura moderna estará preparada para esses dias?

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Feteiras

Dali fomos em direção à Ribeira Grande e voltámos a Ponta Delgada. No segundo dia fomos para o lado este da ilha. Apanhámos a estrada para Lagoa, onde visitámos a Fábrica de Cerâmica Vieira e presenciámos as várias fases do fabrico: barro, cozedura no forno, pintura manual (a cor tradicional é o azul, sobre um fundo branco), vidragem e finalmente a venda.

A fábrica foi fundada em 1862 por Bernardino Silva, oriundo de vila Nova de Gaia. Deslocou-se aos Açores por motivos desconhecidos e acabou por ficar e fundar a fábrica, que foi passando de geração em geração. Tem a particularidade de se ter mantido sempre na mesma família, já vai na quinta geração, mas raras vezes foi transmitida de pais para filhos.

Seguimos pela estrada em direção à Lagoa do Fogo. À medida que subíamos as encostas, o nevoeiro ia e vinha, por pouco não conseguíamos descortinar a lagoa, mas o nevoeiro foi nosso amigo e concedeu-nos uma abertura. É uma lagoa grande, de água azul. A partir do miradouro existe um trilho pedestre, por onde é possível descer a encosta até à margem. Não tínhamos tempo, por isso continuámos o nosso caminho. Lá em baixo, as águas da lagoa eram marcadas pelo rasto da navegação de um pequeno (visto de cima) barco.

Seguimos em direção às Furnas, onde viríamos a passar o resto do dia. No caminho tentámos dar uns mergulhos nas águas quentes e férreas da cascata da Caldeira Velha, mas ficámos bastante desanimadas quando chegámos ao local e vimos que estava encerrada para obras. Obras numa cascata?!

Ficámos tão desanimadas que, pouco depois, na estrada, vimos uma placa indicando “Salto do Cabrito” (“salto” é o nome normalmente dado a cascatas de água e alguns miradouros). Parámos o carro e percorremos o trilho até uma pequena represa de água. A represa, por si, não é espetacular, mas o trilho vale a pena, pelo verde quase tropical e diversidade da vegetação, onde imperam claramente os fetos.

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Salto do Cabrito

Voltámos à estrada, em direção às Furnas. Poucos quilómetros a seguir ao entroncamento que faz a ligação à via rápida que vem da Ribeira Grande, chega-se à freguesia de Gorreana e ás plantações de chá verde e preto, que vimos da estrada. Deve valer a pena uma visita a estas plantações, infelizmente não o conseguimos fazer.

Chegámos às Furnas perto da hora de almoço, e sentimos logo o cheiro do enxofre (parece que alguém se esqueceu de fechar a porta da casa de banho). Visitámos a Lagoa das Furnas e as caldeiras quentes, onde se coze o cozido local. O ambiente fica mais quente, sentimos o calor que emana da terra e que convida a descansar em frente à lagoa de águas tranquilas. Os animais também sentem esta quietude, pois existem muitos gatos e patos, de andar vagaroso, meio adormecidos.

Comemos o cozido das furnas, não podia falhar e o queijo local, maravilhoso. Não notei grande diferença no cozido, gostei, mas notei a falta de uma boa farinheira.

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Caldeiras, junto à Lagoa das Furnas

Depois de um almoço farto, passámos a tarde passeando pelo Parque Terra Nostra, um jardim imenso de variadas espécies herbácias, onde impera o branco e o rosa das camélias floridas. A água é um elemento essencial em qualquer jardim e, neste em particular. Sente-se a humidade no ar, nas folhas, nas pétalas. Diz-se que aquela água tem qualidades termais. Banhámos nos pequenos jacuzzis termais existentes no local. O parque está preparado com vestiários e casas de banho para os visitantes poderem trocar de roupa e aproveitarem da melhor forma a água termal vulcânica.

No final da tarde mudá-mo-nos para as Poças Dona Beija, um complexo termal com cerca de sete poças de água quente, mas quente mesmo, a 40 graus. A água jorra de pequenas cascatas e cria pequenos túneis por trás da água, onde nos podemos sentar e aproveitar o quente do vapor de água, como se fosse um banho turco ao ar livre, com o cheiro férreo do enxofre. A imagem fez-me recordar um tempo antigo, jurássico, uma viagem ao centro da terra, uma união naturalmente perfeita entre a terra, a água e o ar.

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Furnas; Poças Dona Beija

Era praticamente noite quando saímos das poças, ainda dormentes pelo calor. Era tempo de voltar a Ponta Delgada, dai a pouco tempo ia ficar escuro e já não daria para ver grande coisa. No caminho, mesmo ao corpúsculo, vimos uma placa na estrada com a indicação “Salto do Cavalo” e virámos, pensando que era já ali. São ainda uns bons quilómetros por estradas de montanha até chegar ao tal “salto”, que mais não era que um miradouro sobre as Furnas e a Povoação. Vimos ainda alguma coisa da paisagem, já meio encoberta pelo nevoeiro e pelo manto da noite

A condução, nestas condições torna-se perigosa, pois não há luz, as estradas são pequenas, com curvas e contracurvas, a maioria com espaço para apenas um automóvel e temos que contar também com os animais da floresta, que nos surpreendem com a sua presença na estrada. Eram imensos os pequenos coelhos que saltitavam à passagem do carro, com os olhos iluminados pelas luzes. Temos que conduzir com os nossos sentidos inteiramente alerta, para não atropelar nenhum animal.

O terceiro dia foi reservado para visitar o Nordeste da ilha. Voltámos a partir para este, em direção a Lagoa. O cenário alterou-se, seguimos em frente, sempre pela linha da costa até Vila Franca do Campo, passando por pequenas comunidades piscatórias e parando para ver alguns portinhos e praias de areia cinzenta. A estrada, pequena e razoavelmente conservada, é um constante sobe e desce de montes e encostas e as localidades são acolhedoras, com casas pequenas, mas bem conservadas, com o casario disperso pelas encostas.

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Praia da Caloura; Água de Pau

Parámos no porto de pesca e recreio de Vila Franca do campo, avistámos o seu ilhéu ao largo e observámos a azáfama no porto.

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Vila Franca do Campo

A companha de uma embarcação, recém chegada da faina, arrumava as artes de pesca. Tratava-se de uma arte muito especifica, que pessoalmente não conhecia, a “arte de levantar” ou “enchelavar”, uma grande rede de pesca que se prende a uma armação redonda de madeira, utilizada para apanhar chicharro e cavala.

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Vila Franca do Campo

Outros preparavam a faina, reparando as embarcações e cozendo o emaranhado de  redes de pesca.

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Vila Franca do Campo

No caminho para Ribeira Quente e Nordeste, os caminhos obrigam-nos a voltar à floresta e às Furnas, aproveitamos para visitar a Mata-Jardim  José do Canto, em busca do Salto do Rosal. “A mata situa-se na margem Sul da lagoa e foi plantada em meados do Séc. XIX, em terrenos incultos, resultantes do vulcão do Pico do Gaspar (1630)”, de acordo com um projeto de origem francesa. Está rodeando pela ermida, de estilo gótico, de Nossa Senhora das Vitórias, por um pavilhão de navegação, utilizado como casa dos barcos e por um pavilhão da pesca, utilizado para turismo.

Não tínhamos muito tempo, pelo que percorremos, em passo apressado, o trilho de cerca de 1 hora (ida e volta) até à cascata do Salto do Rosal. Os caminhos, em boas condições e devidamente sinalizados, são ladeados de belas cameleiras em flor, muitas delas centenárias, várias espécies de fetos, pastagens, árvores de grande porte, entre as quais uma sequóia.
O local onde se situa a cascata, numa das pontas do parque, é muito bonito, mas tinha pouca água. A partir dela sai um pequeno riacho que desagua na lagoa. É o sitio ideal para visitar em família, com tempo, e aprender um pouco mais sobre o mundo natural e sobre a natureza que rodeia a lagoa das furnas.

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Salto do Rosal

Seguimos em direção à Ribeira Quente, regressámos ao mar. Pelo caminho, a paisagem é tropical, húmida, são imensas as pequenas cascatas de beira estrada, normalmente assinaladas por um pequeno tanque pintado de branco, destinado a conter a invasão da estrada pela água. Estas condições criam todas as condições para uma elevada ocorrência de deslizamentos de terras, enxurradas e derrocadas. Ao entrar na localidade recordei-me das imagens de uma enxurrada ocorrida nos anos 90, que causou a morte, por soterramento, a 29 pessoas e muitos outros danos em pessoas e bens.

Mesmo ao lado do porto de pesca situa-se a Praia do Fogo, uma praia de água tépida, aquecida por nascentes hidrotermais. A praia desenha-se aos nossos olhos numa meia circunferência perfeita. O branco da rebentação toca com suavidade as rochas negras e a areia cinzenta.

Por esta altura já passava do meio da tarde e partimos para a freguesia da Povoação,  por onde já havíamos conduzido na noite anterior, no regresso a Ponta Delgada, tentando fintar os coelhos noturnos. Chama-se Povoação porque foi por ali que começou o povoamento da Ilha de São Miguel. No jardim central existe um padrão dos descobrimentos e um coreto ornamentado com a Cruz de Cristo, que evocam os primeiros povoadores da ilha. Fizemos uma curta paragem para comer e provar as “Fofas”, uma doçaria local. Em volta existem pequenas localidades, denominadas por “Lombas” (Por exemplo, Lomba do Cavaleiro, Lomba do Carro ou Lomba do Botão), talvez devido ao acidentado do terreno, com subidas e descidas acentuadas.

Infelizmente estava a chegar o final do dia e estávamos a ficar sem luz. Já não foi possível ir até ao Faial da Terra e descobrir a cascata do Salto do Prego, que exige caminhar por um trilho, durante cerca de 45 minutos. Mas, estávamos ávidas por aventura e, muito perto do final da tarde, decidimos virar para um caminho sinalizado como Praia do Lombo Gordo. Verificámos pouco depois que não o devíamos ter feito, já que a praia se situa no final de uma ravina, acessível através de um caminho em muito mau estado e com um declive muito acentuado, perigosa para qualquer tipo de veículo. O caminho era muito apertado, mal dava para um carro e estávamos com receio de não conseguir fazer inversão de marcha e subir.

Por sorte, chegámos a uma zona onde existia uma espécie de largo, antes de chegar a uma ponte, parámos o carro e percorremos alguns metros a pé para confirmar se  a praia ainda estaria longe. Voltámos para trás e reuni todo o meu sangue frio para subir a ravina até à estrada principal. Verificámos posteriormente que se tratava de uma pequena praia e que muitas vezes quase não tem areal, consoante as marés. Não basta sinalizar a existência de um local de interesse, também é necessário alertar para a dificuldade de acesso.

Depois do susto, aproveitámos os últimos raios de Sol para parar em alguns miradouros (Ponta do sossego, Ponta da Madrugada, Farol da Ponta do Arnel), e para observar a paisagem maravilhosa que a estrada nos deixava antever, constituída montanhas de vegetação espessa, recortadas por ribeiras. Em poucos quilómetros e numa só tarde passámos de uma paisagem tropical para outra de caracteristicas nórdicas.

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Farol do Arnel

Mesmo no cair da noite descobrimos as nossas últimas cascatas, situadas no parque natural da Ribeira dos Caldeirões, duas grandes cascatas para terminar da melhor forma o nossa caminho de três dias. Vale a pena descobrir, com tempo, os trilhos dos parques naturais da Ribeira dos Caldeirões e da região Nordeste.

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Cascata da Ribeira dos Caldeirões

Ficou tanto por ver. Como alguém nos disse na Povoação, “três dias dá para deixar saudades” e é verdade, já o havia sentido quando há dois anos andei de scooter pelo Pico e Faial. Os Açores serão sempre um eterno retorno.

 

 

Desperdício alimentar

Hora de almoço, numa conhecida loja especializada em sandes:

A cliente estava na fila, aguardando a sua sanduíche. Os olhos estavam fixos no  telemóvel, apenas os dedos se moviam, percorrendo as app’s.

De repente, a cliente levanta a a cabeça, olha para o empregado de balcão e diz, “não quero esta sanduíche, está tostada, dê-me outra se faz favor”, A atitude é afirmativa, sem pestanejar.

“Mas, estas sandes são tostadas”, respondeu o empregado. “Costumo comer esta sanduíche e não é tostada, quero outra”, retorquiu a cliente. E, sem pensar mais no assunto, baixou novamente os olhos para o telemóvel.

A sanduíche voltou para a cozinha. “A cliente não gosta tostada”, avisou o empregado.


Serei só eu a pensar que há algo de errado? Desperdiçou-se uma sanduíche, apenas por estar tostada.

Mala Vazia

(Mala vazia, objectos espalhados pelo chão)

Nur – O que vais pedir hoje a Deus, Zafaran?

Zafaran – Que perdoe os meus pecados e os pecados dos meus pais, irmãos e irmãs e de todos as pessoas do Norte, Sul, Leste e Oeste.

Nur – Quais são os teus pecados?

Zafaran – Não sei.

Nur – O que gostavas de pedir a Deus?

Zafaran – Que pergunta tão estranha.

Nur – Qual é o teu maior desejo?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Imagina que podias pedir uma coisa e que ela te era concedida: um brinquedo, uma casa, um carro?

Zafaran – Não percebo.

Nur – Não tens um desejo, Zafaran?

Zafaran – O que é um desejo?

A casa para onde nos mandaram era uma barraca velha, construída na parte de fora de uma casa de cimento.

As portas de madeira estavam velhas e descoloradas e havia uma janela que nunca foi aberta.

O tecto era feito de folhas de papelão.

Em cada um dos melhores quartos havia uma cama de base metálica, já oxidada.

Os seus colchões manchados estavam rotos e já meio vazios.

Nur – Gosto de brincar com as minhas bonecas, que ficaram debaixo da casa destruída pelos bulldozer’s.

Zafaran – Há 10 anos que não sei nada de Nur. Só a vi uma vez.

Não estivemos um único segundo a sós, mas falámos um com o outro. Olhos nos Olhos. Olhos que nunca antes se tinham cruzado. Os dela eram castanhos, pareceu-me no escuro da sala de aula.

Talvez tenha morrido, talvez tenha conseguido sair, tenha conseguido estudar.

Saudades não pagam dividas!

Nur – Regressar? O país ainda não está preparado.

A única coisa que me pode fazer mudar de ideias é o clima, mas estou a habituar-me à chuva.

Zafaran – Fizeram-me várias entrevistas. Sempre as mesmas perguntas sobre a minha família, os problemas na minha terra e como tinha chegado.

Para ti, que me interrogas, fica sabendo que antes a minha casa era rica de tão honrada e se aqui estou é porque os Deuses assim o determinaram.

Nur – Disseste que gostavas do meu instinto vagabundo. Mas, não acreditas que é ao deixar este país que aprendo a amá-lo melhor. É importante ter um país quando se viaja.

Zafaran – Não tenho passaporte. O meu país é cada pedaço de terra por baixo dos meus pés.

Nur – O que esperas deste país?

Zafaran – Ter um tecto para dormir e dinheiro suficiente para comer

Nur – Não é tão fácil como esperava, quando passei o arame que separa o rio grande.

Pensava que era só uma questão de chegar, trabalhar e regressar um dia à minha aldeia, num carro luxuoso ou levando uma prova do meu esforço.

Zafaran – Porque ficas?

Nur – Quero viver a vida! Sem bulldozer’s.

Se pudesses, voltavas?

Zafaran – (Volta ligeiramente a cabeça para o lado, mirando-a directamente nos olhos).

Preciso de sentir o que é um desejo.

(Desfazer a mala)

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Texto em construção …

Ao Zé Pedro e ao Punk

Originalmente, o punk surgiu nos Estados Unidos da América, por volta de 1974, como uma manifestação cultural da insatisfação social juvenil. Os míticos e ainda tão presentes Ramones, foram a primeira referência, dando caminho a outros, como os Sex Pistols, os mais recentes Offspring e, em Portugal, destaco os Censurados, os Tara Perdida, Mata Ratos, Ratos do Porão, Ku de Judas, Peste e Sida, Xutos e Pontapés de Zé Pedro.

Penso que não vale a pena realçar, mas ainda assim, 1974 foi o ano em que conquistámos a nossa liberdade, amordaçada por quase meio século um Estado “novo” decrépito e injusto, era tempo de berrar por justiça, por sermos diferentes, de gritar por solidariedade, por uma vida melhor e isso exigia agressividade, subversão, simplicidade, que só o punk podia transmitir.

Ser punk, na sociedade atual, tal como em 1974, mais do que uma moda, é a subversão de dizer muito em acordes simples, de acreditar no futuro e gritar alto e em bom som valores sociais, como a liberdade, solidariedade, a igualdade, o desejo de uma sociedade justa, de acreditarmos em nós próprios, na nossa diferença subversiva.

Penso que o Zé Pedro cumpriu tudo isto, com a sua postura, com o seu legado nos Xutos e outros projetos, é uma referência para nós que crescemos a ouvir os seus riff’s, a cantar em uníssono as letras nos concertos, a ouvir os seus programas de rádio, a ler os seus artigos na comunicação social.

Poderão dizer, “os Xustos e Pontapés não poderão continuar sem o Zé Pedro”, mas o Zé Pedro, como verdadeiro punk acreditava e esteve até ao fim, mesmo sentado numa cadeira A coerência da luta exige continuação dos ideais punk, que continuam a ter sentido na sociedade niilista em que vivemos.

O punk continua vivo em Portugal, em bandas de garagem desconhecidas do mainstream musical, em bandas underground por todo o país, está por ai e por aqui.

Viva o Zé Pedro, viva o punk! “Há que violentar o sistema”!

Foto: concerto mítico de Ratos do Porão, Incrível Almadense, 1992. Foto com direitos de autos, retirada daqui