Sobreiro

O tempo na floresta não é compatível com a noção de tempo dos Humanos nas grandes cidades. O sobreiro só começa a dar frutos com dezenas de anos e pode viver até centenas de anos. A floresta envolvente muda consoante a estação do ano, nada permanece igual. É engraçado, mas num campo de sobreiros, podemos sentir a lentidão do tempo passar através do canto das árvores e das aves, do sussurro das cigarras, mas ao mesmo tempo sentir que, dali a um mês, uma semana, um dia, nada será igual, outros sons virão, outra terra haverá.

Imagem retirada daqui

Faustino Cordeiro – Cooperativista

Há pessoas que enriquecem este nosso caminho, com a sua vida. É o caso do Dr. Faustino Cordeiro, com quem, no meu curto percurso profissional, tive o prazer de trabalhar, marcando a minha entrada no mundo das cooperativas. Uma figura incontornável na história do movimento cooperativo português, seguidor dos ensinamentos de António Sérgio, com quem trabalhou de perto.

Professor, exerceu durante alguns anos a profissão de professor primário, dirigente associativo e cooperativo. Foi dirigente da UNICOOP – Federação das Cooperativas de Consumo e, mais tarde, da FENACOOP – Federação Nacional das Cooperativas de Consumo, fundada em 1978, onde colaborou com o Gabinete de Apoio ao Consumidor (GACOOP). Foi aqui que, em 2006, me cruzei pela primeira vez com o Dr. Faustino.

Paralelamente à sua actividade cooperativa, desempenhou também um trabalho importante na divulgação dos valores e princípios cooperativos, na formação cooperativa, bem como na defesa dos direitos dos consumidores, representando a FENACOOP e os consumidores, nos conselhos consultivos e tarifários da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

Foi director e editor do “Boletim Cooperativista”, fundado por António Sérgio, colaborou com “O Pioneiro”, Boletim da Cooperativa de Consumo “Novos Pioneiros”, de Braga, colaborou com o boletim “Linha do Sul”, da Cooperativa de Consumo “PLURICOOP”, foi fundador e membro da comissão redactorial do boletim “Nós os Consumidores”, da FENACOOP – Federação Nacional das Cooperativas de Consumidores e, mais tarde, fundador e colunista do “ECOOP”, a Revista das Cooperativas de Consumidores.

A intervenção cívica manteve-se praticamente até ao final da sua vida, foi dirigente da associação de reformados, pensionistas e idosos de Monte Abraão, freguesia onde residia, tendo fundado o boletim “Nós, os Reformados”.

Faleceu no passado domingo, dia 02 de julho de 2017. Recordo com saudade.

Sobre a actividade sindical

Os temas eram contratação colectiva e actividade sindical:

Directora de Recursos Humanos: “Na minha casa só à porta (referindo-se à distribuição de informação sindical a trabalhadores).”

Ao que pergunto: “Não existem delegados sindicais?”

“Não, nada disso! na minha casa só tenho trabalhadores felizes!”, afirma peremptoriamente a Directora.

Eu: “Mas na lei está previsto o direito de se elegerem delegados sindicais nas empresas, que podem realizar trabalho sindical junto dos trabalhadores.”

Directora: “Na minha casa, só à porta da rua!”

A felicidade da ignorância sempre foi uma ferramenta eficaz.

Como dizia o outro, foi para isto que se fez o 25 de abril pá!

Memórias de Adriano

Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvem neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta escravidão do espírito ou da imaginação (…)

A condição das mulheres é determinada por estranhos costumes são ao mesmo tempo dominadas e protegidas, fracas e poderosas, excessivamente desprezadas e excessivamente respeitadas (…)

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm

Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres (…)

Fica tudo por fazer. Os meus domínios africanos (…) devem tornar-se um modelo de exploração agrícola; os camponeses da aldeia de Borístenes (…) têm direito ao auxilio depois de um inverno penoso (…)

Durante certos períodos da minha vida anotei os meus sonhos: discutia a sua significação com os padres, os filósofos, os astrólogos. Esta faculdade de sonhar, amortecida desde há anos, foi-me restituída durante estes meses de agonia; os incidentes do estado de vigília parecem menos reais, por vezes menos importantes que aqueles sonhos (…)

Procuremos entrar na morte de olhos abertos. 

Excertos de “As memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar

Já passaram alguns meses desde que terminei de ler este livro, mas ficou guardado para partilhar aqui algumas das suas passagens.

Não é um livro fácil de ler, deve-se ler lentamente, como a vida do imperador romano, ali imortalizada para o seu sucessor, Marco Aurélio.

Guardei o retrato de um estadista único, à frente do seu e do nosso tempo, um estadista lúcido, lúcido até na morte, humilde,  mas confiante no rumo ético que traçou, racional e emocional ao mesmo tempo, um defensor do papel da mulher na sociedade. Leiam!

José Afonso

Conto sempre esta história neste dia.

José Afonso morreu em 23 de fevereiro de 1987. Lembro-me de de ter partilhado com o meu pai a sua morte, ao irmos os dois ao velório que decorria na Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal, a antiga Escola Comercial. Eu tinha só 12 anos, estava a poucos dias de partir para uma viagem ao Walt Disney World, mas o meu pai achou importante levar-me até lá.

Tudo me parecia um bocado estranho, ver uma roda de pessoas em silêncio a andar à volta do local onde estava Zeca, muitas delas empunhando com orgulho cravos vermelhos. Mas, apesar da idade e de a minha cabeça já estar com o Donald e o Pateta, senti um arrepio e continuo a sentir sempre que me recordo deste dia, sempre que oiço a música de Zeca, sempre que penso no que acabou por representar para toda uma geração.

Acho que faz sentido continuar a contá-la, sempre.

Preocupações num dia de chuva

Há coisas que me preocupam profundamente.

A quantidade de papel que existe na rua:

Adotem um cão, levem-no a passear à rua e ficarão abismados com a quantidade de guardanapos, recibos, faturas, sacos de papel, beatas e caixas de de cigarros, tudo pronto a cheirar e a comer pelo cão. Já pensaram na quantidade de papel que acumulamos diariamente? Vamos a um supermercado e recebemos, no mínimo, três papeis diferentes com o pagamento da conta. Passamos uma portagem, e temos logo o recibo à nossa mão. Para quê? Não vivemos afinal no país do e-fatura?

Outro problema são os pombos:

Desde que tenho a responsabilidade de assegurar os passeios do meu podengo, constato que as nossas cidades estão cheias de pombos, para grande gáudio dele. Inclusivamente, num dos nossos passeios,  descobrimos um senhor que tem um pombal no quintal de casa. Claro que já se tornou paragem obrigatória para o meu podengo (não fosse ele cão de caça) e até já conhecemos o dono do pombal, que nos cumprimentou, vestido como um cientista louco, com as suas luvas de latex e proteção no nariz.

A chuva:

Porque o chão fica escorregadio e posso esbarlhadar-me no meio da calçada. Tenho que transportar um acessório extra, o emplastro do guarda chuva (quando não o perco e fico com os caracóis em estilo carapinha); arrisco a molhar os pés, por não ter umas galochas em condições. Sabem? umas daquelas super chiques, como se chamam mesmo? Tornar-me subitamente invisível para os outros peões e levar com uma vareta nos olhos ou então tomar um valente banho de água preta do esgoto, enquanto espero nos semáforos.

A falta de espaços para cães nas nossas cidades:

Na cidade de Almada, no Parque da Paz, existe um parque para canídeos e é uma maravilha, para o meu podengo poder brincar com os seus amiguinhos de quatro patas e correr, correr, correr. Não é muito grande, podia ser um pouco maior, mas tem condições: bancos para os donos, baldes do lixo e bebedouros de água para os animais. Precisamos de muitos mais espaços como este nos nossos centros urbanos.

Atenção às vias pedonais:

Este fim-de-semana fiz a primeira cãominhada com o meu podengo pela zona ribeirinha de Lisboa, entre o Cais do Sodré e o Padrão dos Descobrimentos. Correu muito bem, mas tenho a apontar negativamente a atitude dominante dos ciclistas e dos “runners” que por ali circulam, tanto faz que seja à direita, à esquerda, à margem ou por cima de nós. As vias pedonais são de todos, não são autoestradas ou circuitos de atletismo.

Precisamos de liderança, boa liderança:

É uma constatação geral, para várias áreas da nossa sociedade, precisamos de lideres que o saibam ser, que tenham a humildade de reconhecer ser apenas mais uma peça do todo, mas com a especial capacidade para estarem disponiveis, ouvir, decidir quando têm que decidir, compartilhar experiências, decisões, saber delegar, levar mais além cada um dos elementos do todo. Ser humilde, com os pés bem assentes no chão, é uma qualidade de um verdadeiro líder.

As rotundas:

Serei só eu que não atino com a nova regra de circulação nas rotundas? Por mais que tente, para mim não faz sentido!