Enquanto tomo café

O autocarro vai cheio e o meu olhar prende-se no olhar vazio ou adormecido de uma mulher que vai à janela, no que pensará? No trabalho que se aproxima? Na procura de trabalho? Nas compras que tem de fazer no final do dia, antes de chegar a casa? Nos filhos, terão chegado bem à escola? Ou, simplesmente não pensava em nada e deixava-se levar, embalada pelo movimento do autocarro? No banco de trás duas mulheres pareciam conversar animadamente e talvez ruidosamente, no meio de um grande ramo de flores, que parecia querer engolir todos à volta. Outras pessoas pareciam seguir ocupadas ouvindo música, espreitando as redes sociais no telemóvel, lendo ou simplesmente, não fazendo nada.

Começo a tomar atenção à conversa entre a empregada de balcão e uma cliente que chegou entretanto. “Ontem depois de sair daqui fiquei uma hora no comboio. Parece que uma pessoa saltou da ponte, para a linha do comboio, ali perto de Moscavide”. “Que triste. Quando uma pessoa chega a esse ponto, é muito triste”, comentou a cliente, enquanto bebia o café e comia o pastel de nata.

Que estranho, a manhã está fria, devia ter trazido um casaco”, pensei, como se acordasse, instantes antes de pagar, sair do café e subir a rua para o trabalho. No caminho, reparo na montra poeirenta de uma pequena loja de brique-a-braque, que teima em resistir e num grupo de pessoas, no outro lado da rua, vestindo farda de escritório, fumando e bebendo café de pequenos copos de plástico.

Ilustração: Mona Edulesco, “Woman at window

O meu pequeno lobo

Ontem no final no final do dia, o meu pequeno podengo de um ano ia sendo atropelado, ao escapar-se diretamente para a estrada. Foi por uma margem muito pequena que escapou de um camião que ia nesse momento a passar.

Não demonstra medo e dirige-se impetuosamente para os veículos, ladrando ruidosamente. Como é pequeno, com o pêlo castanho claro e muito rápido, torna tudo mais imprevisível e há o risco de os condutores não se aperceberem da sua presença e ser atropelado.

O que fazer nesta situação? Fiquei completamente em pânico, não sabia o que fazer, porque o pequeno não me obedecia, transtornado que estava com o trânsito, gritei tanto, mas tanto, aflita, chamando-o a mim. A vizinha do lado, também ela dona de duas cadelas, ouviu o meu pranto, saltou o muro aflita e entre as duas fomos parando o trânsito, até finalmente conseguir segurar o meu pequeno pela coleira e arrastá-lo para casa. Também poderia ter acontecido com uma das suas cadelas.

A relação que se cria entre dono e cão é realmente especial e já em casa, pensando no que seria se o pior tivesse realmente acontecido, sentia um aperto no estômago (que custa a passar), um aperto do amor que tenho a este pequeno diabrete. Ainda existem finais felizes e um anjo da guarda a olhar pelo meu pequeno.

 

 

 

Maverick’s, Half Moon Bay, California

Chasing Maverick’s é um filme sobre o surfista Jay Moriarty, que aos 16 anos surfou as ondas gigantes Maverick em Half Moon Bay, Norte da Califórnia e do seu mentor “Frosty” Hesson.

You just gotta appreciate everything. And that’s one of the most important things in life, is just really appreciating it, because, you know, we only get to do this once, and it’s not for a long time, so, enjoy it. -Jay Moriarity

Não digo muito mais, vejam!

Sobreiro

O tempo na floresta não é compatível com a noção de tempo dos Humanos nas grandes cidades. O sobreiro só começa a dar frutos com dezenas de anos e pode viver até centenas de anos. A floresta envolvente muda consoante a estação do ano, nada permanece igual. É engraçado, mas num campo de sobreiros, podemos sentir a lentidão do tempo passar através do canto das árvores e das aves, do sussurro das cigarras, mas ao mesmo tempo sentir que, dali a um mês, uma semana, um dia, nada será igual, outros sons virão, outra terra haverá.

Imagem retirada daqui