Sôtora … Está muito bem conservada!

Depois de dias seguidos a almoçar no refeitório do trabalho resolvi tirar uma folga e almoçar num espaço comercial próximo, a habitual salada. Sento-me numa mesa vaga em frente a um senhor que também ali comia a sua sopa.

Inicio a refeição, dou uma vista de olhos às aplicações do telemóvel e e-mail e de repente o senhor que estava à minha frente pergunta, “é alentejana?”. Olho surpreendida no meio de uma garfada de alface e respondo, “não, mas tenho familiares alentejanos”. “Eh pa, eu sabia, você tem pinta de alentejana” contrapõe o senhor, a que respondo com um sorriso, enquanto tento comer algumas bolas de queijo mozzarella, sem saber o que é exactamente ter pinta de alentejana.

“Acabei agora mesmo de comer uma sopa de peixe, estava boa, mas muito quente, estou aqui todo afogueado”, justificando a face corada. Não sabia o que responder a tal confissão, pelo que disse apenas, “ah sim? é sinal que a sopa estava boa”.

Fez-se silêncio, “até que enfim”, pensei.

Nada disso, pouco depois o senhor voltou a falar “trabalha em quê? Vamos fazer um jogo, para animar o almoço. É enfermeira? médica? É jornalista!

Respondo, por entre meio de mais uma garfada de alface e devolvo a pergunta. “Sou engenheiro zootécnico, vim a Lisboa a uma reunião, mas se não estivesse aqui estaria no Alentejo, na matança do porco!” Trabalho numa herdade, perto de Mértola”. 

Coloco uma garfada de tomate na boca e oiço “Já terminaram os saldos?”

“Penso que não”, respondo apressadamente, tentando despachar-me para sair dali rápido. “Vou aproveitar o intervalo da reunião para ver montras.”, responde o senhor, “no Alentejo não temos grandes oportunidades”.

Silêncio. “A vida está tão dificil … mas você ainda é nova”, voltou a dizer o meu companheiro de almoço. “Nem por isso”, respondo.

“Ha! mas a sôtora está muito bem conservada! E a mim, quantos anos dá?”

“Até que enfim, estou quase a terminar a salada”, pensava eu. Respondo dizendo que lhe dava uns 55 anos.

“Eh pa, você não é nada meiga, só tenho 52 anos”, disse o senhor com um sorriso “amarelo”. Desculpei-me pelo lapso, despediu-se e lá foi, ver as montras.

Silêncio.

 

Obrigatoriedade de ajudar

Não gosto quando confundem disponibilidade para ajudar com obrigatoriedade de ajudar.

As organizações, as empresas, são feitas de regras, procedimentos e não gosto que a “disponibilidade” obrigatória passe a ser a regra e mais do que isso, que seja uma forma de dar a volta à regra, transformando-a numa farsa.

Não gosto de dizer sim, quando a palavra é não.

Não gosto de ser obrigada a nada e afirmo isso, alto e bom som, para quem queira e não queira ouvir.

Não gosto quando sinto que aquilo em que acredito é afinal uma farsa.

Vou passear o cão

São 7h25m da manhã e saímos apressadamente para a rua para o nosso passeio matinal. Logo à saída do prédio encontramos o Golias, um companheiro grande, muito grande, provavelmente da raça alemã Weimaraner, que pachorrentamente passeia com a dona, embrulhada até às pontas dos cabelos num forte casaco, cachecol e gorro. Está muito frio, é inverno.

Tento conter a excitação do meu podengo perante a expectativa de cheirar e brincar com o seu novo amigo durante horas, mesmo que seja três vezes o seu tamanho. Cheira, salta, ladra, recebe algumas festas e carinhos da dona do Golias, trocamos alguns dedos de conversa e seguimos em frente com o nosso passeio. O Golias manteve-se sempre imperturbável, majestoso no seu porte senhorial.

Andamos mais um pouco e ao longe vêm um pequeno caniche castanho, quase não se consegue ver, por ser tão pequeno e  não se distinguir na calçada. Mas o meu podengo viu a metros de distância e puxa a trela como se dissesse, olha dona, vêm ai outro para brincar, vamos! O problema é que o Lucky, o nome do caniche, é muito temperamental, não gosta de brincadeira e ladra furiosamente, o que não impede o meu podengo de tentar uma aproximação. A dona, nervosa como o caniche, resolve a questão dizendo “o seu podengo é muito querido, mas o Lucky não gosta de cães, só de humanos”. Ok, não há nada a fazer, puxo pela trela e continuamos o nosso caminho.

Entretanto chegamos à rua onde está o café do bairro. Como sempre, o meu podengo entra na rua, cheira o ambiente, localiza-se geograficamente e começa a puxar a trela correndo como um louco em direção ao café (arrastando a dona) e a uma prometida sessão de festas do dono do café. Já são bons amigos.

Passamos pela entrada da escola em hora de entrada para as aulas. O meu podengo fica maravilhado com as crianças. Salta, puxa pela trela tentando chamar a atenção para receber mais festas, para além daquelas que já recebe da dona de cinco em cinco minutos.

Chegámos ao parque. O dog park hoje está concorrido, com alguns cães grandes. O meu podengo é recebido pelos companheiro, ansiosos por mais um para correr e cheirar, a excitação é muita e é difícil de controlar, mas eles lá têm as suas regras, não devo interferir ou tentar protegê-lo, apesar de ainda ter só seis meses, apenas ter atenção. Entretanto, chega a Bianca, uma cadelinha cor de caramelo, com uma coleira cor de rosa fashion. É uma cadelinha pequena, mas que em energia vale por três grandes.

“Olá gostei de ti, és gira, como te chamas? Queres jogar à apanhada?!” pensou o meu podengo e começou a corrida com a Bianca. No meio daquela balburdia de quatro patas andava um pequeno cachorro pugg, minúsculo. “Ele ainda não percebeu bem o que é ser um cão..” dizia o dono com alguma mágoa “gosta muito de pessoas e de gatos, mas cães ainda não compreende. E também gosta de comida!” Entra uma pessoa com um saco de biscoitos na mão, e o pequeno pugg passa a ser a sombra dos biscoitos. Está a ver? Já tem outro dono..” reclamava o dono real.

Damos uma volta pelo parque, mas o meu podengo acha os caminhos de alcatrão monótonos e acabamos num trail pelo mato. Salta, rebola-se nas malvas, cheira as azedas que já dão um prenúncio da primavera. No caminho para casa passamos perto da churrasqueira e à porta do prédio está um pit bull, mais o dono, vaidoso da sua posse. O meu podengo não olha a raças e quer brincar, ladra e quando ladra, todos o ouvem e bem, tem um som rouco, forte. O pit bull estava nervoso, não ladrou.

“Cala-te pá” gritava o dono do pit bull para o meu podengo, em tom jocoso. Ninguém manda calar o meu podengo, apenas eu! Voltámos a casa.

Entretanto, algum tempo depois encontro uma senhora à entrada do prédio, que reconhece o meu podengo e lhe dá festas. Não sei quem é. Só algum tempo depois percebo que era a dona do Golias.

Pablo Podengo Picasso, é o seu nome.

Tá frio a montes

Frio, que se sente até na pontinha do nariz! Damn, it’s cold! Tá frio a montes! Raios partam o raio do frio! Antes frio que chuva, mas de preferência Sol! Dezembro, com frio até aos ossos. “Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar. Pelo Natal semeia o teu alhal e se o quiseres cabeçudo semeia-o pelo Entrudo”.Está frio que nem uma faneca frita. Pai Natal, eu gosto é do Verão! Frio, mas com estilo! Dezembro, frio de rachar, vê lá se passas rápido, para poder ir nadar.

Bem … já perceberam que não gosto muito do Inverno e do frio, de facto, não é a estação do ano em que me sinto mais confortável, gosto de ares mais quentes. Mas Dezembro é tempo  de vos desejar um Natal feliz, de preferência quentinho e um excelente 2017.

Gorro by Galhudices e a gola by Charlotte, euzinha

Era quase Verão

Era quase Verão, um daqueles dias quentes do início de estação, mas o meu corpo não sabia em que estação do ano estava. Estava numa caixa fechada, escura. Um dia, alguém abriu a caixa e o meu corpo saiu de dentro dela, lentamente, espreguiçando, tacteando, sentindo o real por baixo dele, como balançando na lentidão de uma milonga.
Toquei ao de leve na tua perna, não conseguia ver quem tu eras, por isso imaginei, imaginei pelo toque a tua cara, o teu sorriso, a tua história, o teu futuro, vendo-me também. Imaginei-te. Imaginei-te, para sentir melhor o real por baixo de mim.
Imaginei-te apenas e quando não te encontrei, o meu corpo ficou ali, de pé assente, apenas isso.