Biografia

Uma tentativa de inicio de algo … inspiração numa pessoa real

Inverno, chove lá fora, a água bate com a força do vento de Norte na janela, como se quisesse irromper pela casa e levar os seus habitantes. Na sala está escuro, apenas iluminada pela luz molhada que vem da janela e está silenciosa. Apenas se ouve o tic-tac dormente do antigo relógio de parede e o crepitar acolhedor das chamas na lareira.

Na sala estão duas pessoas, já velhas. Filipe, sentado no cadeirão, olha a janela com olhar distante, como que procurando na chuva e no vento as recordações da vida passada. Em pé, ao seu lado, está Natália, que, com a ternura e a confiança de toda uma vida, envolve Filipe pelos ombros, chamando-o a si. Estou velho, diz Filipe, estou cansado desta doença, desta velhice que me limita, que não me deixa viver como sempre vivi, concretizando sonhos, construindo, sem medo. Natália responde com um beijo e um sorriso, simplesmente.

Filipe é pintor e conta uma vez mais a Natália as aventuras da sua vida. Foi em 1953 que um velho companheiro meu, Ramiro, me atraiu para a pintura, como modo de vida. Até ai, tinha os meus trabalhos, mas nada de profissional, acho que tinha medo, medo de me inscrever no mundo. Portugal, nessa altura, era um país cinzento, conformado, que adormeceu com medo e parecia não querer sair desse torpor. Ramiro era um velho pintor, era um bon vivant, viveu um pouco por toda a Europa em busca de inspiração. Nunca se deteve muito tempo num único lugar, estava em constante movimento, em busca da perfeição. Não sei se conseguiu atingi-la. Os traços e as cores sempre fizeram parte da minha vida, sussurra Filipe, uma forma de olhar para dentro de mim mesmo e procurar o que está escondido e o velho Ramiro ajudou-me a ter esta consciência

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O Eremita

Um eremita vivia no deserto, no cimo de uma duna dourada, numa casa de argamassa negra. Uma palmeira assegurava a sombra, o fresco e algum alimento. De um pequeno poço jorrava vida, o liquido precioso que matava a sede dos habitantes daquele pequeno reino dunar.

Uma cabra era a única companhia do eremita. Ela era o seu conforto, a quem contava as imagens ilusórias que os seus sentidos captavam, como se falasse para ter a certeza de que estava são, que o que via era real. A cabra era a almofada que o acolhia e dava calor nas noites frias e produzia o leite que o corpo precisava para sobreviver naquele mundo aparentemente vazio. Eram bons amigos, companheiros de todo o tempo, família.

A vida era simples, vivia-se em função da longitude do tempo, do que a natureza tinha para oferecer. Era uma vida de contemplação, do tempo, da luz do sol, das estrelas, da areia, com a única preocupação de viver de e para si, em união com o que rodeava, respirando o ar quente puro. Era feliz!

Mesmo ao lado havia uma outra realidade, completamente alheia à simplicidade da vida do eremita, uma realidade de outro mundo, que o eremita observava do cimo da sua duna. Guindastes que tocavam as nuvens, parados, como que perdidos no tempo, pobreza por trás do falso luxo das construções, abandonadas. Sim, falso, porque tudo era falso naquele local, a começar por ele mesmo, pelas pessoas que não eram dali, pela ambição sem escrúpulos que pairava por entre os habitantes, motivados pelo lucro, pelo desejo de ter mais, cada vez mais, esquecendo valores como a justiça, solidariedade, a família, a verdade simples da vida.

Os olhos percorriam as ruas, a expressão de angustia dos habitantes, explorados, mas sedentos de mais bens materiais …uma miragem real e negra no deserto, tão forte, tão presente.

Olhava para a miragem e de seguida para a cabra, que está ali ao seu lado, sempre, na eternidade de todo o tempo, olha para o seu mundo simples e vê o verde e o castanho de vida na palmeira, carregada de alimento, o poço transbordante de vida e sente que o seu lugar é ali, naquele mundo simples, suspenso sob a luz do sol e das estrelas.

Varuna वरुण

Está uma noite quente, a humidade é pesada como chumbo indo até ao centro do ser, contrastando com o fogo que explode nas ruas e polvilha as águas sagradas. Varuna, Deus da Terra, guardião da vida, é imortal e está cansado da Terra que viu nascer e apenas se disfarça na sua grandiosidade, do corpo que não envelhece, da imortalidade que carrega sobre si.

O fim aproxima-se e o Deus da Terra entra no rio com suavidade, mas com a determinação de saber o que se segue. Mergulha fundo no negro do rio e não vê nada, sente-se asfixiar, sente-se incompleto no seu ser. Socorrendo-se do seu último fôlego volta à superfície e respira fundo.

O seu corpo está limpo, a pele molhada brilha como cetim negro na noite. O pó do seu corpo paira no ar, como uma nuvem no nevoeiro, uma nuvem branca, tortuosa, o corpo cheio de uma mulher que o rodeia, que se aproxima como o sopro suave de uma brisa que entra pelo seu corpo.

Varuna está imóvel, tenta chegar à nuvem, toca-la, senti-la, para ter a certeza do que é, para sentir o corpo da mulher transparente que o envolve. Mas é ela que o puxa para dentro de si, suave como um sopro e o enlaça, prendendo-o, não o deixando ir ao fundo. A brisa tem vida própria, percorre o seu corpo, sopra no pescoço e percorre o seu peito molhado, descendo até ao centro da sua mortalidade e volta a subir, soprando agora as costas, as coxas.

Varuna deixa de pensar, deixa de pensar na imortalidade que o asfixia e apenas sente, o seu corpo mortal tocado por aquela brisa desconhecida com corpo de mulher e prepara-se para o êxtase … mas a nuvem desaparece e tudo fica escuro, noite.

Se calhar a nuvem nunca existiu, foi apenas um chamamento da Terra, para impedir o desfecho que se esperava. E Varuna fica ali, imortal, naquele rio sagrado, esperando, guardando, frio, em gelo.

Varuna वरुण

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Mia e a borboleta

Mia vive dentro de uma Dália pintada de um cor-de-rosa fulgurante, tão forte que atrai para suas pétalas suaves e cheirosas os raios mais quentes do sol. Mia é um grãozinho de pólen, uma pequena estrela perdida num emaranhado de pétalas e folhas e ali passa os seus dias, sozinha, brincando, saltitando de pétala em pétala, procurando alimento e a energia do sol.

Nunca conheceu outra flor e conhece bem a sua Dália, mas é muito curiosa e gosta de ir até à ponta das pétalas espreitar o mundo que a rodeia, o sol,os pingos de chuva, o movimento das abelhas que saltitam de flor em flor e que de vez em quando a visitam.

Na verdade, Mia tem medo de abelhas, gosta de as ver ao longe, na segurança da sua pétala e quando elas chegam mais perto afasta-e devagarinho, ou então sopra com muita força, porque pensa que assim elas pensarão que está muito vento e voltarão rapidamente para a colmeia.

Vive protegida pela sua flor, onde o vento a fez nascer e tem poucos amigos. Os passarinhos, os insectos que ali poisam logo se vão embora, depois de terem o alimento que procuram, não têm tempo para ela, para brincar, para jogar às escondidas, para rir com as tropelias do dia ou mesmo para chorar quando está mais triste.

Num certo dia, quando Mia estava à varanda de uma das pétalas, pensando no que poderia estar lá fora, recebeu a visita de Camélia, uma pequena borboleta amarela, que olhando para a expressão triste de Mia perguntou “Olá pequena, és tão bonita, como te chamas?”

“Chamo-me Mia, nasci aqui e gosto muito de brincar, mas não tenho amigos para brincarem comigo, estou triste, nem vale a pena aproximares-te!” A borboleta, que estava habituada a vaguear pelo mundo sozinha, ao sabor do vento, foi tocada pela ternura do grãozinho de pólen. Não te preocupes Mia, eu posso ser tua amiga, queres vir dar um passeio comigo?

Então, uma Mia desconfiada, mas expectante, subiu para o dorso da borboleta, segurando-se com toda a força às suas antenas e juntas voaram sobre campos com árvores e flores de todas as cores. Mia não fazia ideia de que existiam outras flores para além da sua Dália, com cores e pétalas tão diferentes e tão bonitas e outros grãozinhos de pólen com formas tão diferentes, estrelas, meias luas, pequenas bolinhas … Juntas foram até às nuvens, viram como se forma a chuva, de onde vem o vento que orienta as suas vidas, voaram sobre rios, mares …. juntas, partilhando o que viam.

“Sabes Camélia, tenho medo de voltar, porque sei que te vais embora e não vais voltar … São todos assim..”, disse Mia, antevendo o regresso à sua Dália e o fim de toda aquela aventura, ser apenas um grãozinho de pólen perdido na sua flor. “Sim Mia, a minha vida de borboleta não é muito longa, não sei se consigo voltar e levar-te a ver mundo … mas depende de ti, basta tu queres, não estás sozinha na natureza.”

Mia apertou com ternura as antenas de Camélia, despedindo-se e pulou para uma das familiares pétalas cor-de-rosa. A partir daquele dia Mia nunca mais se sentiu sozinha, bastava saber que não era o único grãozinho de pólen do mundo, que existiam outras flores e passou a ter muitos amiguinhos para brincar e ser feliz. Basta querer e não desistir!

Mia

Inverno

É Inverno, chove, chove, uma chuva ácida, forte, que parece querer partir a janela e irromper com toda a sua força dentro do quarto. Ela, nua, como se tivesse acabo de nascer, acomoda-se num canto da cama, que não reconhece, envolve-se numa manta quente, procurando conforto, calor e olha em frente, para o espelho, olha para si própria, para o desenho delicado da boca, para os olhos grandes, o longo cabelo negro que lhe cobre os seios e não se reconhece. O espelho é um ponto de interrogação, um buraco negro, Inverno.

A tempestade adensa-se e uma rajada abre a janela com violência. Ela assusta-se, encolhe-se no seu ser, tem dificuldade em respirar, sente-se a asfixiar.

Volta a olhar para o espelho, apercebe-se de que está só naquela casa, que sente a falta de algo que não está ali, e decide sair, para a tempestade, para o frio, para a humidade, para fora de si, em busca de si, em busca de outros. Ruas vazias, montras de néon, centros comerciais apinhados de gente que que não se olha, gente que se acotovela, salas de cinema vazias, luzes que ofuscam, anos a percorrer ruas cheias e vazias, sem se ver, invisível, vaguear, como uma sem abrigo.

De repente, abre os olhos, está de novo na casa, no quarto que lhe parece familiar, na cama acolchoada e confortável, não se ouve o menor som de chuva, uma luz quente entra pela janela, ouve-se o chilrear de pássaros, uma criança rosada e alegre, com tranças compridas, entra aos saltos e chama …. mãe, mãe, olha só o coelhinho fofo que encontrei no jardim, não é lindo? Vem, anda brincar connosco! Então, de mãos dadas as duas saem para o jardim … para o Sol.

Foi só um pesadelo!

Nós não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos.

Anais Nïn

“Sendo” [ 銭湯 ]

Tira os sapatos, cruza a cortina e entra no banho, imediatamente toma consciência do calor, da humidade que a envolve e que contrasta com o gelo que inunda as ruas. Senta-se sobre as duas pernas, em silêncio, como se estivesse a meditar e com suavidade abre o quimono vermelho, deixando transparecer a brancura da nudez, apenas contrariada pelo agreste negro do cabelo que lhe cai pelas costas e do sexo.

Passa as mãos pequenas pela água termal e deixa cair pequenas gotículas, que percorrem os braços, depois os olhos, os lábios pequenos, os seios que parecem flores de ameixeira a florir na Primavera. As mãos percorrem o corpo, preparando-o para algo que se seguirá, descobrindo caminhos que serão desbravados por um homem que cruzará a cortina à procura do momento, para a tomar para si, com força viril, domínio e que depressa a esquecerá e substituirá.

Ela toma consciência de si, do seu corpo, dos seus desejos e mergulha na água quente, que a acolhe, como se voltasse a casa, desaparecendo por entre as ondas prateadas, na brancura do seu ser.

“Sendo” [ 銭湯 ]

As três princesas

Era uma vez um reino … muito longe, nos confins do universo, no planeta dos sonhos, onde viviam três princesas com três super poderes mágicos: Dália, Eufrásia e Laia …

Era uma vez um reino … muito longe, nos confins do universo, no planeta dos sonhos, onde viviam três princesas com três super poderes mágicos. Dália, que com a sua varinha mágica conseguia satisfazer desejos de prosperidade, fazer nascer flores, ouro e outras riquezas do solo mais árido, Eufrásia, que conseguia alegrar o mais carrancudo dos Homens com as suas tropelias e Laia, a mais nova, que com um piscar de olhos conseguia tocar o coração do mais frio dos homens.

Era um reino muito pobre, o solo era árido, cor de cobre, de onde era difícil fazer nascer o que quer que fosse. Os súbditos viviam numa penúria triste, trabalhavam de dia e noite nas terras para conseguirem algum alimento e rendimento para as famílias, orando aos deuses para cair um pouco de chuva que ajudasse ao cultivo. Não havia harmonia na natureza e entre as pessoas.

No entanto, as três princesas viviam no palácio do rei, que era feito de ouro, doces e pedras preciosas, com jardins coloridos e lagos de suavidade. Era um oásis suspenso num reino pobre, como se de outro reino se tratasse. Ai viviam, brincavam, passeavam, como ninfas, alheias, protegidas pelas muralhas do palácio e por um batalhão de criados que satisfaziam todos os seus caprichos.

Laia era a mais bela e graciosa das princesas, com grandes cabelos cor de amêndoa e uma simpatia que todos conquistava, mas também era muito fútil. Era a mais popular da corte, ia a todas as festas, com os vestidos mais belos. Era muito mimada e gostava de ser o centro das atenções. “Quem é a mais popular do reino?” perguntava ela às estrelas antes de dormir … e as estrelas respondiam … és tu, bela Laia, e ela ficava feliz, a sentir-se reconfortada no seu pequeno mundo.

Um dia, as estrelas fartaram-se de tanta futilidade e mandaram um mensageiro … um gato preto, mais preto do que o universo, chamava-se Plutão. Quando Laia fez a pergunta do costume, o gato Plutão disse … sabes … o teu reino é muito grande, podes ser muito popular na tua corte, mas não és a mais feliz e popular das mulheres porque os teus súbditos são infelizes. Tens que fazer alguma coisa!

Foi um choque para Laia. O quê?! Não acredito, estás a zombar de mim, disse ela já zangada e com orgulho ferido. Não estou nada, disse Plutão, o mundo não gira à tua volta, há pobreza lá fora, vai e vê com os teus olhos. Plutão abanou a cauda e … puf … Laia passou de um vestido imaculado de princesa para as roupas velhas e sujas de uma camponesa e um tapete mágico conduziu-a para fora das muralhas do palácio.

Caminhou durante horas, irritada, a sentir-se suja, com o orgulho ferido e nem sequer reparava no terreno árido e pobre que pisava, que empoeirava as suas socas rotas de camponesa. Finalmente, o caminho terminou numa pequena aldeia, onde foi recebida por um velho senhor, com umas barbas brancas muito compridas e sobrancelhas farfalhudas, que lhe davam um ar austero, mas que tocava suavemente uma harpa.

Quem és tu? De onde vens? perguntou o velho senhor. Sou Laia, sua alteza real, a princesa do reino dos sonhos, disse ela com altivez, tens que te curvar perante mim e prestar-me vassalagem.

Já sei quem tu és, disse o velho senhor, as estrelas disseram-me que virias. Vem comigo, vais conhecer o teu povo e conduziu Laia pelas estradas, pelos campos áridos, pelas casas pobres, pela tristeza das pessoas, que viviam sem esperança no futuro.

Tinham sido esquecidas pelos seus governantes, pelos Reis e príncipes do palácio. Laia não queria acreditar e sentiu-se envergonhada de si própria, da sua futilidade e vida fácil. Velho Senhor, disse ela, peço às estrelas que me levem de volta ao palácio, voltarei com uma solução para melhorar a vida do meu povo.

E assim foi, Laia subiu para o tapete mágico, perdendo uma das socas velhas e voltou ao palácio. Ai chegada, relatou às irmãs o que tinha acontecido e pediu-lhes ajuda, para o povo que vivia fora do palácio. Então, as três princesas uniram os seus super poderes mágicos: a varinha mágica de Dália deu riqueza, abundância, chuva, um solo rico, alimentos e roupas, florestas, flores, árvores que davam frescura e abrigo, animais para caça e rios suaves, com muito peixe para pescar. Eufrásia, com as suas tropelias, deu alegria, devolveu o sorriso ao povo e Laia, com um piscar de olhos, o poder há muito esquecido, deu doçura, amor, concórdia, harmonia entre as pessoas …

Agora sim, havia um reino, com um povo feliz e governantes de verdade, um reino de sonho … Laia era uma pessoa diferente, saiu do seu pequeno mundo e passou a ser a princesa do seu povo.

Um dia … o velho senhor voltou ao palácio, levando consigo a soca rota que Laia havia perdido na aldeia. Vim devolver esta soca que pertence à princesa Laia, disse ele aos guardas. Foi logo recebido pela princesa que, gentilmente, descalçou o seu sapatinho de madrepérola e calçou a soca rota. Quando olhou para cima, por magia, o velho senhor havia-se transformado num belo rapaz, que lhe beijou docemente a mão …

Para além de um povo, Laia encontrou o seu príncipe e viveram felizes para sempre, em harmonia, no reino dos sonhos, na companhia do gato Plutão.

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Esboço do inicio de algo …