Agatha Christie “And he should be brainy”

“he should have little grey cells of the mind.” Agatha Christie faria 125 anos. Gosto de livros policiais, mas os de Agatha Christie são especiais, bem como, Miss Marple, Poirot, Tommy & Tuppence, Ariadne Oliver, as personagens

Agatha Christie faria 125 anos, se fosse viva. Aqui está uma autora de que gosto muito. Gosto de ler livros policiais, mas os da Agatha Christie têm algo de especial, transportam-nos para a Inglaterra do inicio do século XX, para os hábitos e estilo de vida dos anos 20, 30, 40, têm sempre pequenos apontamentos de humor, “les petits manies” de Poirot, as coscuvilhices da Miss Marple. Os enredos deixam-me ocupada durante horas, sem pensar em mais nada, leio, volto atrás nas páginas para tentar decifrar os mistérios, penso nas personagens, na sua descrição psicológica. O final é sempre uma surpresa e no caso do Poirot, dramático, normalmente com todos os personagens reunidos numa sala.

De todos os personagens mais conhecidos, os que conheço menos são Tommy & Tuppence , um casal de detetives super descontraídos e Ariadne Oliver, quiçá um alter ego da autora. Em segundo lugar, por ordem de leitura, vem a Miss Marple e em primeiríssimo merecido lugar, Mousieur Poirot, uma personagem fantástica, aprimorada ao logo dos anos, assistido pelo garboso Captain Hastings e pela dedicada Miss Lemon.

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Estes são alguns livros que já passaram pelos meus olhos e células cinzentas:

  • Poirot, o golf e o crime
  • O segredo de Chimneys
  • O assassinato de Roger Ackroyd
  • O mistério do comboio azul
  • Crime no vicariato
  • A diabólica casa isolada
  • A morte de Lord Edgware
  • Os crimes do ABC
  • Crime na Mesopotâmia
  • Morte no Nilo
  • Encontro com a Morte
  • As férias de Poirot
  • Um cadáver na biblioteca
  • Os trabalhos de hércules
  • Poirot investiga
  • As quatro potências do mal
  • O mistério dos sete relógios
  • O assassinato no Expresso Oriente

“And he should be brainy;

he should have little grey cells of the mind.”

Expedição Orenoco-Amazonas 1948-1950

Mais do que um livro de viagens (um dos meus géneros de literatura preferidos), é um testemunho antropológico e arqueológico da vida humana na floresta tropical amazónica, das tribos índias que nessa época já estavam em vias de desaparecer, ameaçadas pelo mindo industrial, os caçadores de caimões, garimpeiros, comerciantes

Há dias, numa conversa de elevador, uma colega disse-me que ia de férias para o México e que ia, por sua conta, à aventura, fazer a passagem para a Colômbia. Lembrei-me imediatamente de um livro que li há uns anos, a “Expedição Orenoco-Amazonas 1948-1950”, de Alain Gheerbrant. A viagem deste livro é ligeiramente diferente, porque começa em Bogotá e depois segue pelos Rios Orenoco, Negro, Amazonas até Manaus e oceano atlântico.

É mais do que um livro de viagens (um dos meus géneros de literatura preferidos), é um testemunho antropológico e arqueológico da vida humana na floresta tropical amazónica, das tribos índias que nessa época já estavam em vias de desaparecer, ameaçadas, dos caçadores de caimões, garimpeiros, comerciantes

“A orgia desenrola-se discreta e lentamente, de acordo com o movimento regular do sol. A maior parte da tribo encontra-se, agora, na praça da aldeia. Uns bebem de pé, outros sentados ou até deitados no chão. As cabaças cheias sucedem-se e são de imediato substituídas pelas mulheres que, vigilantes, vão e vêm entre as pirogas e a praça. A capacidade de cada cabaça ultrapassa um litro. Os estômagos, em breve, ficam tão dilatados que os índios têm de vomitar antes de beber o conteúdo de outra cabaça. Inclinam simplesmente a cabeça para a frente, como, para beber, a inclinam para trás (…) continuamos a filmar (…) O xamã passa por nós. Caminha com lentidão, o rosto grave. Vigia os homens e as crianças para se assegurar que todos cumprem o seu dever até ao fim (…) Porquê tal excesso? Porque é que toda esta gente deve beber de maniera tão imperiosa tamanhas quantidades de chicha? Chamo a isto uma orgia, mas apercebo-me de que nada tem a ver com o sentido que damos a essa palavra. Não vejo um único bêbado no meio desta multidão.”

Excerto da pág. 103, que retrata uma misteriosa cerimónia dos índios piaroas. A sua existência é conhecida há séculos, mas existe ainda pouca documentação sobre esta tribo, mas a sua cultura tem conseguido manter-se mais ou menos intacta. A maior parte vive em território Venezuelano, nos afluentes da margem direita do Rio Orenoco, à volta de Sipapo e nos Rios Cuao e Autana.

Para reler novamente, sem dúvida e imaginar como seria …escutar, ler a língua dos espíritos que vivem na floresta.

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Excerto do mapa da expedição

O que dizem as estrelas?

Vê as estrelas, Zeca? Sabe o que elas dizem?

Não, mãe.

Sabe, filho, a noite é uma carta que Deus escreve em letrinhas miuditas. Quando voltar da cidade você me há de ler essa carta?

Sim, mãe.

* Mia Couto, “Mar me Quer” *

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Estrelas e outras coisas … Papel cavalinho com tinta da china ©CarlaEspada

A Viagem

” ….Vamos – disse o homem.
– Tenho medo – disse a mulher.
– Estamos juntos – respondeu o homem -, não tenhas medo.
E seguiram pelo carreiro.
O homem ia à frente e a mulher atrás segurava-se com a mão esquerda aos penedos e com a mão
direita ao ombro do homem.
Iam em silêncio sob o brilho escuro das estrelas, medindo cada gesto e cada passo.
Mas de repente o corpo do homem oscilou, rolaram pequenas pedras. Ele gritou à mulher:
– Segura-me!
Mas já o ombro dele escorregava das mãos dela. E a mulher gritou:
– Agarra-te à terra!
Mas nenhuma voz lhe respondeu, pois no grande silêncio nítido e sonoro só se ouvia o rolar das
pedras.
Ela estava sozinha, vestida de terror, agarrada ao chão em frente do vazio.
– Responde! – gritou debruçada sobre o abismo. Longe, o eco da sua voz repetiu:
– Responde …”

Excerto de “A Viagem”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Contos Exemplares”

Inspirou-me para pintar o que vi nesta viagem.

As três princesas

Era uma vez um reino … muito longe, nos confins do universo, no planeta dos sonhos, onde viviam três princesas com três super poderes mágicos: Dália, Eufrásia e Laia …

Era uma vez um reino … muito longe, nos confins do universo, no planeta dos sonhos, onde viviam três princesas com três super poderes mágicos. Dália, que com a sua varinha mágica conseguia satisfazer desejos de prosperidade, fazer nascer flores, ouro e outras riquezas do solo mais árido, Eufrásia, que conseguia alegrar o mais carrancudo dos Homens com as suas tropelias e Laia, a mais nova, que com um piscar de olhos conseguia tocar o coração do mais frio dos homens.

Era um reino muito pobre, o solo era árido, cor de cobre, de onde era difícil fazer nascer o que quer que fosse. Os súbditos viviam numa penúria triste, trabalhavam de dia e noite nas terras para conseguirem algum alimento e rendimento para as famílias, orando aos deuses para cair um pouco de chuva que ajudasse ao cultivo. Não havia harmonia na natureza e entre as pessoas.

No entanto, as três princesas viviam no palácio do rei, que era feito de ouro, doces e pedras preciosas, com jardins coloridos e lagos de suavidade. Era um oásis suspenso num reino pobre, como se de outro reino se tratasse. Ai viviam, brincavam, passeavam, como ninfas, alheias, protegidas pelas muralhas do palácio e por um batalhão de criados que satisfaziam todos os seus caprichos.

Laia era a mais bela e graciosa das princesas, com grandes cabelos cor de amêndoa e uma simpatia que todos conquistava, mas também era muito fútil. Era a mais popular da corte, ia a todas as festas, com os vestidos mais belos. Era muito mimada e gostava de ser o centro das atenções. “Quem é a mais popular do reino?” perguntava ela às estrelas antes de dormir … e as estrelas respondiam … és tu, bela Laia, e ela ficava feliz, a sentir-se reconfortada no seu pequeno mundo.

Um dia, as estrelas fartaram-se de tanta futilidade e mandaram um mensageiro … um gato preto, mais preto do que o universo, chamava-se Plutão. Quando Laia fez a pergunta do costume, o gato Plutão disse … sabes … o teu reino é muito grande, podes ser muito popular na tua corte, mas não és a mais feliz e popular das mulheres porque os teus súbditos são infelizes. Tens que fazer alguma coisa!

Foi um choque para Laia. O quê?! Não acredito, estás a zombar de mim, disse ela já zangada e com orgulho ferido. Não estou nada, disse Plutão, o mundo não gira à tua volta, há pobreza lá fora, vai e vê com os teus olhos. Plutão abanou a cauda e … puf … Laia passou de um vestido imaculado de princesa para as roupas velhas e sujas de uma camponesa e um tapete mágico conduziu-a para fora das muralhas do palácio.

Caminhou durante horas, irritada, a sentir-se suja, com o orgulho ferido e nem sequer reparava no terreno árido e pobre que pisava, que empoeirava as suas socas rotas de camponesa. Finalmente, o caminho terminou numa pequena aldeia, onde foi recebida por um velho senhor, com umas barbas brancas muito compridas e sobrancelhas farfalhudas, que lhe davam um ar austero, mas que tocava suavemente uma harpa.

Quem és tu? De onde vens? perguntou o velho senhor. Sou Laia, sua alteza real, a princesa do reino dos sonhos, disse ela com altivez, tens que te curvar perante mim e prestar-me vassalagem.

Já sei quem tu és, disse o velho senhor, as estrelas disseram-me que virias. Vem comigo, vais conhecer o teu povo e conduziu Laia pelas estradas, pelos campos áridos, pelas casas pobres, pela tristeza das pessoas, que viviam sem esperança no futuro.

Tinham sido esquecidas pelos seus governantes, pelos Reis e príncipes do palácio. Laia não queria acreditar e sentiu-se envergonhada de si própria, da sua futilidade e vida fácil. Velho Senhor, disse ela, peço às estrelas que me levem de volta ao palácio, voltarei com uma solução para melhorar a vida do meu povo.

E assim foi, Laia subiu para o tapete mágico, perdendo uma das socas velhas e voltou ao palácio. Ai chegada, relatou às irmãs o que tinha acontecido e pediu-lhes ajuda, para o povo que vivia fora do palácio. Então, as três princesas uniram os seus super poderes mágicos: a varinha mágica de Dália deu riqueza, abundância, chuva, um solo rico, alimentos e roupas, florestas, flores, árvores que davam frescura e abrigo, animais para caça e rios suaves, com muito peixe para pescar. Eufrásia, com as suas tropelias, deu alegria, devolveu o sorriso ao povo e Laia, com um piscar de olhos, o poder há muito esquecido, deu doçura, amor, concórdia, harmonia entre as pessoas …

Agora sim, havia um reino, com um povo feliz e governantes de verdade, um reino de sonho … Laia era uma pessoa diferente, saiu do seu pequeno mundo e passou a ser a princesa do seu povo.

Um dia … o velho senhor voltou ao palácio, levando consigo a soca rota que Laia havia perdido na aldeia. Vim devolver esta soca que pertence à princesa Laia, disse ele aos guardas. Foi logo recebido pela princesa que, gentilmente, descalçou o seu sapatinho de madrepérola e calçou a soca rota. Quando olhou para cima, por magia, o velho senhor havia-se transformado num belo rapaz, que lhe beijou docemente a mão …

Para além de um povo, Laia encontrou o seu príncipe e viveram felizes para sempre, em harmonia, no reino dos sonhos, na companhia do gato Plutão.

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Esboço do inicio de algo …