Viagens

O cansaço da mortalidade que invade o corpo

A doce expetativa das gotas de orvalho num prado de outono

©CarlaEspada
©CarlaEspada

O que nos pode transmitir um livro. “O Caminho Estreito para o Longínquo Norte” de Matsuo Bashô. Obrigada!

Lista de (re)leitura para os próximos meses

Alguns são primeira leitura, outros, como o “Fio da Navalha” de Somerset Maugham, um regresso. É bom regressar de vez em quando e ver as diferenças, sentir que crescemos ou que estamos mais velhos, mas mais atentos.

Neste momento, debato-me com “O segredo de Guilherme Storitz”, uma história fantástica de um homem invisível, de Júlio Verne.

P.S.: O que está no fim da lista é o “Jangada de Pedra” do José Saramago e é mais uma tentativa para ler os seus livros

livros

Relatividade

Geodesicastatic

Acabei de ler uma biografia de Einstein, que aborda um pouco (não exaustivamente) o seu pensamento cientifico e a sua vida, as suas fragilidades, o seu humanismo, a sua sensibilidade. E fiquei fascinada com a vida desta pessoa, que não é linear, não é cientificamente lógica, como se poderia pensar à partida para um cientista. Uma pessoa, em constantemente em movimento, mesmo quando estava “parado”.

O parque de diversões

Está ai a Feira do Livro de Lisboa, a decorrer, como habitual, no Parque Eduardo VII até 14 de junho. Mas, do que se trata afinal? Uma feira onde se vendem livros ou uma espécie parque de diversões? Um concentrado de eventos de promoção de aspirantes a escritores (modelos, apresentadores de televisão, actores, cozinheiros …)? Uma mostra de gastronomia?

É impossível percorrer as bancas, folhear os livros com calma, conversar com os livreiros, procurar raridades, nem sequer conseguimos chegar perto dos livros com tantas pessoas na rua e à volta das bancas. É impossível passear calmamente pelas ruas, sem levar com um algodão doce pela cara.

Uma canseira, é o que é!

Se é uma feira do livro, então que sejam os livros.

Silêncio

“Minha vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
– Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.
Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:
– Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.
Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes. (…)”

Mia Couto @ “Jesusalém”

Este foi um livro marcante e marcante é também o silêncio. Estar em silêncio com as pessoas que mais gostamos é muito bom. Estar em silêncio, mas saber que não estamos sós, que está ali uma pessoa que partilha a paz do nosso silêncio.

Capitães da Areia <3

capitaes da areiaNeste momento estou a ler Capitães da Areia, de Jorge Amado, é lindo, um poema sobre a história do Brasil. Partilho duas passagens que adoro, provavelmente voltarei aqui a partilhar muitas mais 🙂

Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual, muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite. Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o areal do cais do porto. Por baixo da ponte não há mais rumor de ondas. A areia invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. Aos poucos, lentamente, a areia foi conquistando a frente do trapiche. Não mais atracaram na sua ponte os veleiros que iam partir carregados. Não mais trabalharam ali os negros musculosos que vieram da escravatura. Não mais cantou na velha ponte uma canção um marinheiro nostálgico. A areia se estendeu muito alva em frente ao trapiche. E nunca mais encheram de fardos, de sacos, de caixões, o imenso casarão. Ficou abandonado em meio ao areal, mancha negra na brancura do cais.

Durante anos foi povoado exclusivamente pelos ratos (…). Em certa época um cachorro vagabundo o procurou como refúgio contra o vento e contra a chuva.  O cachorro partiu depois de uns dias e os ratos voltaram até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas para o casarão abandonado.”

O trapiche é a casa dos capitães da areia, onde cada personagem tem o seu próprio espaço, desenhado de acordo com a sua personalidade.  É o local onde choram mágoas, onde engendram os planos do bando, onde dividem os lucros e as poucas mas valiosas alegrias da vida na rua.

“Volta Seca e o Sem-Pernas nunca haviam acolhido uma idéia com tanto entusiasmo. Eles muitas vezes já tinham visto um carrossel, mas quase sempre o viam de longe, cercado de mistério, cavalgados os seus rápidos ginetes por meninos ricos e choraminguentos.”

Sobre a felicidade dos meninos pobres em brincar, rodopiar livremente no carrossel que vai ser montado na praça para eles, com a ajuda dos Capitães da Areia. A alegria de fazer uma coisa certa, sem roubos ou furtos, para os meninos da comunidade operária mais pobre.

Olhos Azuis, Cabelo Preto

OLHOS_AZUISN_CABELOS_PRETOS_1234800967B“On the coast of an unknown country, a man and a woman reside in a house by the ocean. He has paid her to come and stay with him. She lies down on the floor, sometimes sleeping, sometimes awake, but always naked. There is nothing physical between them. The woman pines for a man she once met but has since disappeared from her life. The man was sexually awakened upon seeing another man with blue eyes and black hair. They reside within walls, listening to the ocean waves. They talk. They weep. The man inspects her body clinically, as if searching for something.”

Excerto de “Ohos Azuis, Cabelo Preto”, de Marguerite Duras. Um livro estranho, que confesso ainda não percebi bem (vou reler mais vezes), mas gostei da intensidade, de sentir a narração. Acho que é um livro aberto, cada pessoa sente à sua maneira. Têm sido feitas adaptações teatrais deste livro (Teatro Praga, em 1996), aliás é praticamente a sinopse de uma peça de teatro ou de um filme, em três actos.

Contos Maravilhosos

Acabei de ler um livro maravilhoso, mesmo, os “Contos Maravilhosos” de Hermann Hesse.

Já tinha lido anteriormente o Siddhartha (“he who has found meaning (of existence)” or “he who has attained his goals”), que passou a ser um dos meus livros favoritos (que vou reler e reler e reler), com uma mensagem de paz, de orientação sobre o que é a vida e o nosso caminho para alcançar a plenitude, a felicidade pleIMG_0659[1]na. Li este livro num momento complicado. Ainda não encontrei o caminho, mas este livro é uma mensagem de tranquilidade.

Como gostei tanto, voltei a ler outro livro do mesmo autor e fiquei surpreendida porque os escritores alemães não são, normalmente, fáceis de ler, fechados. “Contos Maravilhosos” são um conjunto de pequenas histórias cheias de significado, simbolismo, espiritualidade, que nos transportam para um mundo diferente, mágico.

As histórias foram escritas num momento histórico marcado, o inicio do século XX. Até à I Guerra Mundial as histórias eram mais positivas, luminosas.Com a I Guerra Mundial passam a ser mais negras, influenciadas pela incerteza desse período histórico, pela sociedade dessa altura, pela guerra, pela morte.

São cerca de 20 contos, indico apenas alguns dos que gostei:

Singular mensagem de uma outra estrela(1915): uma mensagem sobre a morte, sobre aceitar a morte como uma “metamorfose da vida”, com naturalidade.

O Império (1918): como um conjunto de pequenos reinos, pobres, mas ricos em cultura e valores se transformam num super-estado, controlado por lideres-máquinas e acaba por se emancipar. Representa a Alemanha do pós I Guerra Mundial, mas é uma história muito atual, considerando a situação politica da Europa, da Grécia e Portugal e, surpreendentemente, o poder detido hoje pela Alemanha.

O Anão (1903): quando as histórias mágicas dos contadores de histórias tocam a realidade, a mente de quem as ouve.

O Monte Misterioso (1908): nunca subestimar a natureza, a harmonia e a beleza da natureza, como se esta fosse um ser vivo, com vontade própria.

Próximo livro: “Budapeste” de Chico Buarque

Medo

Há dias participei numa abeautiful_africa_photos02tividade relacionada com o livro “Portugal Hoje – O Medo de Existir”, de José Gil, que aborda a problemática do medo, a dificuldade de “inscrição”, ou seja, de ultrapassarmos aquilo nos bloqueia, o medo, o obscurantismo e concretizarmos aquilo que queremos e defendemos, pensando sobretudo na nossa sociedade. A atividade foi seguida de um pequeno exercício teatral, onde o desafio era imaginar personagens dominadas por medos.

Este é o inicio de uma história (baseada na personagem que imaginei nesse exercico) e que procurarei continuar (a seu tempo…estas coisas não saem facilmente) em posts posteriores:

I

Filipe é um pintor de 40 anos, vive em Lisboa, numa comunidade de artistas, uma “comuna” coletiva. Tem duas filhas, Isabel e Sofia, de 10 e 5 anos, respectivamente, fruto de relações anteriores falhadas. Filipe vive da sua arte, sobretudo dos retratos que pinta e vende na rua, é um pintor de rua, andando por aqui e ali, procurando nunca desistir do que gosta fazer, apesar das dificuldades.

O sonho de Filipe é sair de Lisboa e ver e sentir as paisagens africanas, viver simplesmente, consoante as necessidades, sem grades, livre e pintar as paisagens africanas, a selva, a savana, os seus animais, o calor, a cultura, viver, conhecer o mundo desconhecido.

No entanto, tem medo, sobretudo medo de não conseguir “inscrever” este seu sonho, porque não tem dinheiro, vive praticamente de “esmolas” que lhe dão na rua, as relações familiares, dividas, relações pessoais conturbadas, um Estado que o amordaça e que só cria obstáculos, tem medo…

“Jesusalém” e não “Jerusalém”

6779188“Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez” Mia Couto, Jesusalém (e não Jerusalém).
Li recentemente este livro, é um daqueles livros que se lêem de uma assentada, querendo a cada página conhecer um pouco mais sobre a família, sobre as pessoas ali retratadas e fiquei maravilhada com a poesia que o Mia Couto imprime na sua prosa.
Ler um livro é um ato muito pessoal, cada pessoa sente as palavras de uma forma diferente. Para mim, tentando resumir um pouco como li a história, Jesusalém é uma ilha no meio do mato africano, uma “prisão” onde uma família se esconde (comandada pelo pai) do mundo para esquecer um acontecimento trágico, esquecer o passado, o mundo, o futuro, mas sem o conseguir realmente fazer…
Fazer o luto é necessário para seguir em frente. Gostaria de ver uma adaptação teatral deste livro.