A família addams dos trópicos

Acho que a família addams é minha vizinha. Conheço esta família (pai, mãe e dois filhos agora adultos) há muitos anos e vestem de preto, sempre, mesmo que seja no pino de um dia de calor, como o de hoje, todos tem cabelo mais preto que o alcatrão e uma pele de um branco que parece nunca ter sido tocado pelo sol. Mas o mais impressionante é que num dia de Verão, ao sol, com perto de 40 graus, conseguem estar frescos como uma alface e cheirosos.

Não sou de criticar estas coisas, cada um é livre de se vestir como quer, eu própria já fui adepta do estilo gótico (sempre temperado com alguma cor, é verdade). Mas, não posso deixar de pensar …Como? Eu estou aqui de calção branquinho e t-shirt de algodão azul a suar por todos os poros e a cheirar a vinagre.

Louco!

Já vos aconteceu ao andarem na rua ou no metro, por exemplo, pensarem qual será o sentido de todo o rodopio à volta, das pessoas que cruzam caminhos, que traçam linhas imaginárias interligadas, em silêncio, ordenadamente, para algum lado, que se deslocam para um destino, embrenhadas nos seus pensamentos, mas sempre ordenadamente e em silêncio, longe.

E já pensaram, o que faço eu aqui? Qual é o meu papel aqui? Como se estivessem a observar de fora e pensando … apetece-me gritar, agarrar em cada uma destas pessoas, forçá-las a encarar, tocar o outro.

No meio dos caminhos que se cruzam, com destinos certos, há pessoas que vagueiam para destinos incertos.

Maggie the queen – a minha gata

EscrIMG_0018[1]evo este post num dia em que uma constipação me forçou a ficar em casa, mas não estou sozinha, tenho comigo a minha gata, Maggie, que está sempre aqui, no colo ou muito perto da dona, massajando com carinho, como que dizendo…”Vá, põe-te bem rápido, quero brincar”, dando miadelas “fofas” (uma expressão própria da dona), cheirando, lambendo, dormindo, mordiscando, sendo companheira.

A minha gata é muito especial (enfim… eu sei…é minha), foi adoptada numa loja de animais vai para 4 anos e logo nesse dia revelou a sua personalidade, pondo-se em cima da cabeça do companheiro de “cela” que dormia uma bela sesta, para dar nas vistas, como se pensasse “quero estes donos para mim!”. Ficou Maggie, por causa dos Simpsons, afinal era a bebe da família.

Era minúscula, cabia na palma da mão, tinha umas orelhas enormes e uns grandes olhos verdes, linda. Veio para casa numa caixa de papelão que supostamente daria para o transporte, mas qual quê, a Maggie queria conhecer o mundo, conhecer tudo e rapidamente saiu disparada da caixa e começou a circular dentro do carro. Nota-se logo que é uma gata porque tem comportamentos, formas de estar muito girly.

É um pouco anti-social, faz parte da sua personalidade própria, talvez porque não convive com muitas pessoas e porque ficou marcada por uma visita que é uma daquelas pessoas que adora irritar ou atiçar gatos, o que eu detesto. Gosta muito dos seus donos, isso basta-lhe.

Não gosta de estar sozinha, adora saltar para cima da mesa nas refeições (mesmo sabendo que está a cometer uma infração grave), nunca foi de brinquedos de gato, do género ratinhos, penas, bolas, arranhadores…não tem paciência, farta-se logo. O único brinquedo a que se apegou foi uma simples bolinha de esponja que transportava na boca para todo o lado, nunca ia dormir sem a sua bolinha. Irritava-se quando a bola ficava presa nas unhas e saltitava.

Claro que com tanto uso, a bola (ou o que restava dela) teve que ir para o lixo. Procuro incessantemente outra igual. Alguém sabe? Tirando a bola de estimação, a Maggie gosta mesmo é de brincar com as coisas dos donos, é muito mais interessante.

Claro que, sendo uma gata, por questões de saúde a magginha foi esterilizada, a operação foi um momento de grande ansiedade, porque ficou internada 2 dias. Parece que nesses dias sentia os passinhos da Maggie, o “tic tic” das unhas no chão. Felizmente, até agora ainda não teve grandes problemas de saúde, porque de certeza que iria ser um sofrimento. No entanto, tenho pena de a Maggie não ser mãe, porque de certeza que iria ser uma mãe gata muito cuidadosa das suas crias.

Por vezes penso….como irá ser quando a Maggie ficar velhinha, doente e morrer…não sei, mas para mim será com certeza como perder uma pessoa que amo muito.

Uma curiosidade lendária: “Os hebraicos têm uma lenda onde o gato teria sido criado por Deus, dentro da Arca, quando Noé, preocupado com a proliferação dos ratos que se procriaram excessivamente na embarcação, implorou à Deus para que Ele providenciasse uma solução. Deus então fez com que o leão da Arca espirrasse, e do espirro desse felino, surgiram os gatos domésticos.” Ver mais aqui e aqui

Não é uma delicia?!

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Baby Maggie - What were you thinking to buy me a dog toy!!?
Baby Maggie – What were you thinking to buy me a dog toy!!?

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Para onde vou?

I

E se um dia nos obrigassem a deixar a casa, a terra onde vivemos desde sempre, e mudar para outra casa, noutra aldeia, com outros vizinhos, mas sem a possibilidade de voltar e ver o que ficou para trás, por tudo ter ficado debaixo de água? José percorre todos os dias as ruas da nova aldeia, para ver, para sentir, para procurar nela as memórias que vai deixar para trás e percorre-a com passos pesados, como se cada pé suportasse o peso do mundo inteiro. Com 70 anos percorre as novas ruas, com a ansiedade de que receia o passar do tempo … o medo de morrer num local desconhecido, com a pressa de mudar.

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O que fica para trás? Os mortos (é como se morressem pela segunda vez), as memórias de infância, as brincadeiras com os amigos na praça central, os namoros escondidos e protegidos pela sombra de uma oliveira, a corrente suave do rio e as pescarias que se realizavam nas suas pedras amaciadas pela corrente, a vida, os nascimentos, as mortes, casamentos, desejos que ficaram nas ruínas da velha igreja…e que nunca poderão ser resgatados, permanecendo apenas na memória. A memória, a vida que ficou para trás…para quê? Um sacrifício por causa do progresso, progresso este que afinal tarda em vir (Será que veio? Será que ainda virá? Será que deve vir?), progresso apenas para alguns.

Tudo mudou, a paisagem, antes recortada por um rio suave, agora é marcada por um grande lago, sem margens. Basta aproximar-mo-nos um pouco para logo nos afundar-mos, afundar-mo-nos até chegarmos às ruínas do passado, que ainda resiste, como se na esperança de os homens mudarem e voltar a haver vida nas suas velhas ruas, nas casas, nas cozinhas… Voltar e ver a parede, tal e qual como se deixou, com a fotografia de há 40 anos atrás…

Haverá de chegar o tempo em que não haverá lago e haverão apenas ruínas … para onde iremos?

II

As memórias ficam connosco e o Homem é um ser maravilhoso. Apesar da dor, da perda, é sempre possível recomeçar, sem perder o passado, criar um novo amanhã, num novo local. Para as crianças é mais fácil a mudança, as memórias são ainda poucas, mas no final todos somos ainda crianças, estamos em constante evolução e a mudança faz parte da vida.

“A última vez que vi a minha aldeia estava um dia chuvoso, tudo molhado. Hoje está sol.”

Inspiração: documentário “A Minha Aldeia já Não Mora Aqui”, de Cristina Mourão

“Jesusalém” e não “Jerusalém”

6779188“Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez” Mia Couto, Jesusalém (e não Jerusalém).
Li recentemente este livro, é um daqueles livros que se lêem de uma assentada, querendo a cada página conhecer um pouco mais sobre a família, sobre as pessoas ali retratadas e fiquei maravilhada com a poesia que o Mia Couto imprime na sua prosa.
Ler um livro é um ato muito pessoal, cada pessoa sente as palavras de uma forma diferente. Para mim, tentando resumir um pouco como li a história, Jesusalém é uma ilha no meio do mato africano, uma “prisão” onde uma família se esconde (comandada pelo pai) do mundo para esquecer um acontecimento trágico, esquecer o passado, o mundo, o futuro, mas sem o conseguir realmente fazer…
Fazer o luto é necessário para seguir em frente. Gostaria de ver uma adaptação teatral deste livro.