Tavira e a história dos arraiais da pesca do atum

Continuando por Tavira e pela Ria Formosa, há também a forte presença de uma comunidade piscatória, nomeadamente da pesca do polvo (Santa Luzia), marisco e bivalves. No entanto, a pesca do atum desempenhou um papel importantissimo até por volta dos anos 60 do Século XX, sendo ainda visíveis sinais da armação de pesca do atum na Praia do Barril, conhecida pelo cemitério de âncoras enterradas na areia e que serviam para fixar à terra as armações de pesca do atum.

O atum era pescado com armações, uma arte de pesca fixa, de grande extensão, constituída por redes verticais sustentadas por estacas, bóias ou âncoras (como na Praia do Barril). A partir dos anos 60/70, a pesca do atum desapareceu no Algarve, sobretudo por insuficiência de atuns, que progressivamente se foram afastando desta costa para outras águas.

A última armação foi lançada ao mar em 1972, tendo dai resultado a pesca de um único atum. Fica a história, registada na areia, que hoje é percorrida pelo turista sedento de sol e mar, mas que, na minha opinião, também não deve ser alheio à cultura, sociedade e história dos locais que visita, relatada por algumas empresas que organizam passeios turísticos na Ria Formosa.

As comunidades piscatórias organizavam-se socialmente em arraiais, onde tinham a sua casa, escolas, capelas, zonas de lazer, meios de apoio à pesca. Enfim … eram pequenas aldeias à borda de água. Nas Quatro Águas (junto à Ilha de Tavira) podemos ver ainda o antigo arraial Ferreira Neto, o único restaurado, que atualmente é uma pousada para turismo.

Sobre o Atum:

«O atum é um peixe migratório que na primavera inicia uma rota desde o Atlântico até ao Mediterrâneo, culminando no Mar Negro, tendo como única passagem o estreito de Gibraltar. Como o atum é bastante tímido e assustadiço ao ver as negras redes de pesca eriçadas, impermeabilizadas em alcatrão, numa estrutura fixa por âncoras e bóias que mais parecia um dédalo de corredores ou de ladrilhadas muralhas medievais, afastava-se para um canal que o conduzia até ao “copo”, uma espécie de armadilha de onde não podia sair senão fisgado na ponta do arpéu dos pescadores, debruçados sobre as redes numa luta desigual entre a força e o engenho, à qual eufemísticamente chamaram a tourada do mar”, mas que não passava dum verdadeiro ritual de sangue».

Retirado daqui

Almadrava: documentário histórico, que retrata a vida da comunidade piscatória do Arraial Ferreira Neto. “Um pedaço da história do Algarve”

O que resta do Arraial Ferreira Neto, navegando pelas Quatro Águas. Foto tirada com smartphone
O que resta do Arraial Ferreira Neto, navegando pelas Quatro Águas. Foto tirada com smartphone

Os 7 diretores

Ás vezes acho que a minha entidade empregadora é o máximo, outras não e só quero fugir (a maior parte das vezes). Mas, de uma coisa tenho a certeza, é diferente! Não gosto das reuniões de direção ao Sábado (porquê?!!), mas gosto do almoço com os diretores a seguir, a que vou por vontade própria. Vou explicar porquê:

A minha entidade empregadora está ligada à pesca, logo os Diretores (7 homens) são pescadores e é o máximo ouvir e entrar nas conversas descontraídas de almoço. “Então?! Hoje têm uma jovem à mesa … uma princesa!!”, diz um conhecido que passa pela mesa do restaurante. Risota geral, todos contentes, orgulhosos.

As conversas giram sempre em torno da pesca, que vai mal, da sardinha que não há, dos apoios que não têm, do preço baixo do pescado na primeira venda (exploração?!), dos novos barcos e dos seus nomes muito próprios – adoro o nome “Dragãozinho” – anedotas que dizem um pouco envergonhados, por causa da mulher que está na mesa (deixo uma no final deste post), futebol, dos peixes da época e dos que são importados, dos netos que nascem.

Aprende-se muito, partilhando as conversas, os diferentes nomes dos peixes nas várias regiões do país, novas espécies de peixes que surgem no mercado, as milhares espécies de ovas que podemos comer. Por exemplo, as sardinhas pequenas podem ter vários nomes: Esquilha, Petinga (Setúbal).

Detesto ovas, mas parece que a melhor altura do peixe, aquela em que é mais rico, é quando está em procriação, quando têm ovas. Na prática podemos comer ovas de praticamente todas as espécies de peixes.

Sabiam que nos anos 50/60 do século XX eram os pescadores que apoiavam os clubes de futebol das localidades ribeirinhas, como o Vitória de Setúbal, o Peniche ou Vila Condense? É verdade, mas os clubes do regime eram o Benfica e o Sporting.

Como sou setubalense, muitas das conversas não me são estranhas, gosto deles, são castiços, diferentes, não são robôs engravatados, mas é preciso ter a humildade suficiente (de ambos os lados). Hoje partilhei a sobremesa morangos com Moscatel de Setúbal, adoraram!

Então?! Vão à Nazaré? Sim, vamos, vamos homenagear Nossa Senhora! Vamos passar-lhe a mão no sitio…

😀

ginjal