Uma manhã no mercado

Só posso assinalar o Dia Mundial da Fotografia, com imagens, imagens de pessoas, dos seus instrumentos de trabalho, documentando um pouco do trabalho no Mercado do Livramento, em Setúbal.

Escolhi fotografar a cores, porque o mercado vive de cor, texturas, expressões que não é possível captar com preto e branco.

Uma manhã nas compras … aproveitei para comprar maçã riscadinha e legumes para a sopa.

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Ruelas da minha cidade

Pequenas ruas, vielas, travessas, becos, pátios antigos adormecidos pela sombra, onde as vidas se interligam por cabos e antenas, como um chamamento para o Sol, que brilha lá no fundo e que nos transporta para o mar, para locais e paisagens irreais. Sons, cheiros, cores, vozes de dialectos diferentes que saem de dentro de janelas, gatos, cães, pássaros, gaivotas, sinais de vida numa cidade antiga, mas que insiste em não morrer.

Bela Vista e outros bairros

Vivi grande parte da minha vida perto do Bairro da Bela Vista, em Setúbal. Andei em Escolas localizadas no centro do bairro. Brinquei com amigos do bairro. Por isso, não sou daquelas pessoas que acham que os bairros sociais são “lixo” e que as pessoas que neles vivem devem ser mantidas o mais possível à distância. Não, mal ou bem, foram construídos e têm o lado positivo de dar um tecto a famílias que antes viviam em bairros de lata ou na rua.

Claro que, a maioria dos bairros sociais foram construídos nos anos 70 e 80, em que não existiam grandes preocupações com o bem estar das populações, em criar um ambiente de vida saudável e aberto à restante comunidade. Pela forma como foram construídos tiveram o efeito negativo de criar guetos, de conduzirem à auto-reclusão dos seus habitantes e ao medo da restante comunidade.

Isto é muito visível no Bairro da Bela Vista ou no Bairro Azul, que também faz parte do complexo habitacional da Bela Vista e tem a particularidade de ter uma vista espectacular sobre a baia do Sado e estar rodeado de muralhas, forçando assim o seu fechamento.

Historicamente, a construção destes bairros tem origem nos movimentos migratórios ocorridos entre as décadas de 30 e 50 do Século XX, com a instalação de várias indústrias em Setúbal, o que conduziu à precariedade das condições de vida. Aquilo que hoje designamos “habitação social” foi promovida pelo extinto Fundo de Fomento de Habitação e o Bairro da Bela Vista nasceu na década de 70 para alojar as famílias que trabalhavam nas novas indústrias. Nas décadas de 80 e 90 albergou também famílias realojadas de bairros degradados. (Fonte: Relatório de Diagnóstico Sintético do Bairro da Bela Vista)

No bairro convivem (muitas vezes com conflitos) várias culturas, tais como, a cultura cigana, a cabo-verdiana e timorense, com cores, cheiros, hábitos de vida muito característicos e que saltam à vista nas varandas, nos cafés e nas colectividades existentes. Sim, existe muito associativismo na Bela Vista, o que é bom e é uma auto-defesa.

Recentemente tem havido um esforço para abrir estes bairros à restante população, para criar melhor condições de habitabilidade, em desenvolver projetos de desenvolvimento social e cultural, ocupação de tempos livres de jovens e idosos, em dinamizar a arte urbana, a pintura dos prédios, a recolha de lixo, em tornar o espaço mais aprazível, em afastar o “estigma” do gueto.

Talvez por tudo isto, gosto da multiculturalidade, de viver em bairros, torna a vida mais rica, mais viva.

Olho com preocupação para o nascimento de outros “guetos”, ou melhor, lugares abandonados, em Setúbal: a área comercial da baixa. É triste passear por ali e ver o abandono, as ruas vazias…

Para quem quiser saber mais, recomendo três filmes sobre a Bela Vista:

“Um Fim do Mundo” – uma Longa-Metragem de ficção realizada por Pedro Pinho

“Cama de Gato” (ficção) e o documentário “Bela Vista”, de Filipa Reis e João Miller GuerraIMG_0686[1]

Setúbal

«(a Frei Diogo Crespo)

0 mais difícil não é ir à Arrábida, porque no Verão há carreiras de camionetas, no Inverno há em Azeitão táxis ou carroças ou jeriquinhos tão prestáveis; como os da Cacilhas de antigamente, e de janeiro a Dezembro, para muita e muito boa gente, há duas pernas vigorosas e de boa vontade que fazem transpor, a Serra pelo Vale do Picheleiro. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte para os bons banhistas, os bons amigos de bem-comer, os bons turistas; o que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. Sabe-se lá se o alor místico lhe vem da origem, se lho deixaram – inefável herança! – os franciscanos do seu Convento?… Mas é fora de dúvida que o visitante, se o não apreendeu, saiu da Arrábida sem sequer ter entrado nela verdadeiramente!”

Por Sebastião da Gama