A nuvem

A morte é certa, estou velho, não posso aqui ficar sempre, nesta carne já cansada e corroída pela doença. Ela vai chegar de mansinho para me levar, sem que eu dê por isso, espero. No entanto, estou aqui, gesticulo, falo alto, tento mexer-me, reclamo, grito para que me tirem desta nuvem asfixiante, incómoda, que me prende friamente. Sinto-a e tremo.

Há coisas que preciso de criar, preciso de criar!!! Há lugares que preciso ver, tocar, sensações que preciso sentir, há pessoas, laços, que ficam. Os outros, que passam rápido pela minha nuvem, não me conseguem ouvir e escrevo incessantemente o que me vai na cabeça, agito o papel numa tentativa de me expressar.  Tirem-me desta nuvem!!!

Não me compreendem, nem se quer olham. Sou apenas mais um velho neste corredor atulhado de velhos presos em nuvens, como se estivesse numa fila de espera lenta e mortiça, para entrar na morte.

Troquei-lhes as voltas, levantei-me às escondidas, corri e passei à frente da fila, ahhhhh(!!!) enganei-os a todos. Voltei para me certificar de que quem fica continua, mas eu já não faço parte deste mundo de nuvens frias, voo livre deste cansaço, pelos campos de trigo e sobreiros, percorro as ruas onde namorei, estou nas festas com os amigos com quem fui feliz, estou no que construí, vivo os dias em que também fui infeliz. Sempre regressei incessantemente a esta terra…

“A Mais Terna Ilusão”

“Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar… Quis então recordar a sua pátria verdadeira…, mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele… Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara… Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara… E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido… Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de 12 um gesto materno se lembrava… E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido… Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer… Ó minhas irmãs, minhas irmãs… Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse… Qualquer coisa que explicaria isto tudo… A minha alma esfria-me… Mal sei se tenho estado a falar… Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui! ante vós e que há coisas que são apenas sonhos…

De eterno e belo há apenas o sonho. Por que estamos nós falando ainda?”

Excerto de “O Marinheiro”, de Fernando Pessoa

“A Mais terna ilusão” é a adaptação para teatro, por “Um Coletivo” @ XVII Festa do Teatro de Setúbal

Pela Companhia de Teatro de Almada:

Em Nome da Terra

Sons, vozes, cheiros, estrelas, lua, estrelas cadentes a cair no céu, besouros, pirilampos a voar na noite e um plano inclinado, comunhão de sentimentos. A vida, como ela é, também feita de morte e de memórias. Tenho que ver outra vez!
EM NOME DA TERRA @ Teatro O Bando

Paralisada, sem querer falar com ninguém, só eu e as minhas emoções. Foi assim, o final deste brilhante espectáculo

a música …

Jorge Salgueiro, compositor

Feliz!!!

Correu bem a minha apresentação de teatro!!!! Não me enganei (houve só uma coisinha ….) Estou feliz, valeu a pena, valeu a pena, sobretudo o sair de mim, encontrar outros e encontrei uma comunidade, um território …. um inicio.

O Teatro O Bando realiza anualmente uma formação teatral para todas as idades e experiências, são as Confrarias do Teatro. Este ano participei nas Confrarias, e foi a primeira vez que fiz teatro. O nosso grupo, orientado por Artur Atalaia, reuniu vários exercícios em torno do tema território, da importância do lugar, das memórias de uma comunidade e o que representa a mudança de lugar.

Encontrei uma comunidade de pequenos e graúdos com personalidades diferentes, uns com mais stress, outros com mais descontração, timidez, equilíbrio, encruzilhadas pessoais, sonhos que insistem em sobrepor-se às dificuldades sem sentido da vida … Obrigada a todos, pela partilha. ❤

Para quem não me conhece, estou ao fundo, com um big smile!!! E a cereja na ponta do bolo foi ter feito teatro com adereços construídos pelo meu pai …

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Dona Vontade

Hoje tive a minha primeira experiência  em movimentar uma marioneta, e adorei 💜

Dona vontade é uma pequena peça de teatro com uma marioneta.

Palco: a marioneta, luz, uma cadeira, terra e uma caixinha de música.

Solidão, a ligação com a terra, memórias, Alentejo envelhecido, são alguns dos temas aflorados na peça.

No final podemos experimentar a marioneta!

Improvisos

“Vamos para o rio”

Acção: três pessoas encontram-se perto de um rio, unidas por um único acontecimento: uma guerra

A: matou pessoas na guerra, esteve presa e quer partir em procura de vida

B: Viu a guerra à distância, mas quer sair de si e ajudar as pessoas tocadas pela guerra

C: Viu familiares serem mortos na guerra e tem dificuldades em deixar o passado

As três personagens confluem num apeadeiro junto ao rio, que representa a fuga, a partida em busca da liberdade e no caminho irão encontrar-se com outras personagens.

Medo

Há dias participei numa abeautiful_africa_photos02tividade relacionada com o livro “Portugal Hoje – O Medo de Existir”, de José Gil, que aborda a problemática do medo, a dificuldade de “inscrição”, ou seja, de ultrapassarmos aquilo nos bloqueia, o medo, o obscurantismo e concretizarmos aquilo que queremos e defendemos, pensando sobretudo na nossa sociedade. A atividade foi seguida de um pequeno exercício teatral, onde o desafio era imaginar personagens dominadas por medos.

Este é o inicio de uma história (baseada na personagem que imaginei nesse exercico) e que procurarei continuar (a seu tempo…estas coisas não saem facilmente) em posts posteriores:

I

Filipe é um pintor de 40 anos, vive em Lisboa, numa comunidade de artistas, uma “comuna” coletiva. Tem duas filhas, Isabel e Sofia, de 10 e 5 anos, respectivamente, fruto de relações anteriores falhadas. Filipe vive da sua arte, sobretudo dos retratos que pinta e vende na rua, é um pintor de rua, andando por aqui e ali, procurando nunca desistir do que gosta fazer, apesar das dificuldades.

O sonho de Filipe é sair de Lisboa e ver e sentir as paisagens africanas, viver simplesmente, consoante as necessidades, sem grades, livre e pintar as paisagens africanas, a selva, a savana, os seus animais, o calor, a cultura, viver, conhecer o mundo desconhecido.

No entanto, tem medo, sobretudo medo de não conseguir “inscrever” este seu sonho, porque não tem dinheiro, vive praticamente de “esmolas” que lhe dão na rua, as relações familiares, dividas, relações pessoais conturbadas, um Estado que o amordaça e que só cria obstáculos, tem medo…