Nove dias em Marrocos

O dia estava quente, um quente seco, diferente. A primeira imagem foi do aeroporto, também diferente, com esplanadas na zona exterior das chegadas, em vez da familiar confusão de malas, autocarros e táxis, por entre meio de cotovelada diversas. Aterrei no Norte de África, mais concretamente em Casablanca, Marrocos. O ambiente era de uma tranquilidade inesperada.

O sentimento geral era um misto de cansaço e de curiosidade partilhada pelas imagens que se seguiriam. Será que nos nove dias seguintes conseguiria transpor para a fotografia as imagens, os olhares (os meus – os nossos)? Será que conseguiria um relato visual coerente, do ponto de vista documental? Será que conseguiria orientar-me por um determinado caminho visual?

Todos pensaríamos nisso e também no que ficava a milhares de quilómetros dali e nas pessoas com quem iríamos partilhar os dias seguintes. Eu, pensava se me conseguiria adaptar a um grupo de 11 desconhecidos. Dependeria também dos outros, era uma incógnita de que não valia a pena pensar muito.

Não deu para conhecer Casablanca, que julgo ter pouco a ver com a Casablanca do filme. Do avião (já na viagem de regresso) deu para perceber que é uma cidade, como tantas outras, com prédios a perder de vista, culminando na conhecida mesquita à beira mar. As ruas, vistas de cima, levaram-me-me pensar que houve alguma preocupação com o ordenamento urbano.

Dali, das esplanadas do aeroporto, onde tirámos a nossa primeira fotografia de grupo, partimos num pequeno autocarro para o primeiro destino, a cidade imperial de Meknés, mais a norte, relativamente perto de Rabat.

Os carros que circulavam pela autoestrada, numa azáfama inesperada de final de dia, marcaram a minha observação. Um grupo de cordeiros transportados numa carrinha de caixa aberta foi a primeira imagem fotográfica e o primeiro contacto com a tradição do cordeiro na cultura muçulmana.

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©Carla Espada

Talvez seja o momento indicado, nesta narrativa, para falar um pouco da tradição do cordeiro, que me acompanhou durante grande parte da viagem:

Eid Al-Adha (عيد الأضحى), ou Festa do Sacrifício, é um festival que marca o fim do Hajj ou peregrinação a Meca. Acontece no décimo dia do último mês do calendário islâmico (Dhu al-Hijjah), sendo celebrado por todo o mundo islâmico em memória da disposição do profeta Ibrahim (Abrãao) em sacrificar o seu filho Ismail, conforme a vontade de Deus.

A história é muito semelhante à dos judeus, que faz parte do antigo testamento, com a diferença de que, enquanto na religião judaica Abrãao não matou o filho, no Corão, Ibrahim conversou com Deus em sonho, e Deus disse-lhe para sacrificar aquilo que lhe era mais precioso e amado, seu filho, Ismail.

Ibrahim relatou ao seu filho a vontade de Deus, e este concordou com o sacrifício. Ambos partiram para Muna, cidade perto de Meca, onde Ismail morreria. Pelo caminho, Ibrahim foi tentado pelo demónio, para desobedecer a Deus. Mas Ibrahim ignorou a tentação, tapou os olhos com uma venda para não ver o que mais lhe fazia sofrer, e cortou a garganta de seu filho. Quando Ibrahim retirou a venda, reparou que Deus colocou ao lado do seu filho um carneiro, que foi morto em vez de Ismail.

Depois de ter vencido esta provação, a tradição muçulmana afirma que Deus concedeu que Ibrahim, com 100 anos, tivesse um segundo filho, Isaac.

As comemorações duram até quatro dias. No primeiro dia de manhã, homens, mulheres e crianças vestem as melhores roupas e realizam a salat (oração) numa grande congregação. Depois da oração, as famílias reúnem-se para o sacrifício do cordeiro.

Pode sacrificar-se um , dois , três ou mesmo dezenas de cordeiros, depende da condição económica da família. O animal deve ser macho, adulto e saudável. A carne que resulta destes sacrifícios é distribuída por familiares, vizinhos e pobres.

Enquanto Eid al-Adha é sempre no mesmo dia do calendário islâmico, a data no calendário gregoriano varia de ano para ano, dado que o calendário islâmico é um calendário lunar e o gregoriano é um calendário solar. Este ano, a comemoração ocorreu na segunda semana de setembro e coincidiu com a minha visita a Marrocos.

Bem … retomando o percurso da viagem, chegámos a Meknés já de noite, após uma viagem de mais de duas horas. Entrámos na medina de malas às costas, contornando, com dificuldade, as motas que circulavam a grande velocidade, saltando sobre os gatos que escapavam ao destino de atropelamento certo, sentindo os cheiros, observando a azáfama dos comerciantes que fechavam as bancas, preparando já os quatro dias do feriado.

Chegámos. O Riad era um pequeno oásis de silêncio no meio daquele frenesim. Apesar da hora tardia, comemos com vontade o repasto que nos aguardava, constituído por vários pratos de entradas, molhos com especiarias que chamava gulosamente pelo pão, legumes cozidos, frango. Recordo sobretudo o sabor da fruta, os pêssegos, as maçãs, tudo me parecia mais intenso.

Para mim, seguiu-se o desejado descanso, já que o dia seguinte era para madrugar e fotografar tranquilamente a paisagem da Medina, ao nascer do sol, a partir do terraço. Quatro pessoas do nosso grupo decidiram-se ainda por um passeio nocturno pela Medina. Não andaram muito, porque ali mesmo ao lado, ao espreitarem por uma janela depararam-se com uma festa. Foram convidados para entrar e apesar de já terem jantado lá foram, em sinal de boa educação. Era um casamento, a comemoração de um casamento marroquino!

O que nos relataram depois de viva voz e em fotografia foi um mundo de comida (mas sem desperdício), cor, música, dança. Durante a noite, a noiva vestiu vários vestidos, um deles parecia uma caixa dourada, de onde apenas saia a sua face, gravemente maquilhada, transportando-nos para um imaginário egípcio.

A festa decorreu madrugada dentro. O mais estranho é que a festa foi de arromba, estava a decorrer mesmo ali ao lado e não havia sinal sonoro dela, apenas o eco do lamento dos carneiros e, mais de madrugada, o chamamento do muezim.

Dia seguinte, 06h30 da matina, eu e a minha máquina fotográfica fomos para o terraço para apanhar algumas imagens da Medina ao nascer do sol. Cenário imenso de terraços, quintais, varandas, antenas parabólicas e pequenas coisas, que apenas começamos a ver ou a sentir à medida que o dia nasce: capoeiras de galinhas, gatos que saltam por entre terraços, o som das cabras, cada vez mais forte à medida que se aproxima o momento do sacrifício, as diferentes cores e texturas da roupa nos estendais, inscrições em árabe nas paredes, grades de garrafas Coca-Cola.

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© Carla Espada

Meknés (مكناس) é uma das cidades mais importantes de Marrocos, sendo uma das chamadas cidades imperiais, tal como Fez, Rabat e Marraquexe, por ter sido a capital durante o reinado do Sultão Moulay Ismail, entre 1672 e 1727. No entanto, ao contrário de Marraquexe, que é cada vez mais turística, Meknés guarda ainda caracteristicas próprias e isso nota-se também no relacionamento com as pessoas.

A Medina e o centro histórico é património da humanidade da UNESCO. O centro histórico está rodeado por uma muralha, dentro da qual se situa o palácio do sultão e a cidadela imperial. A produção e transformação de fruta, verdura, cereais, a produção de azeite de palma, o artesanato e tapeçaria, são algumas das industrias desta cidade.

Não houve tempo para muito, apenas para visitar a praça el-Hedim, percorrer algumas ruas da medina (observar os bonitos telhados em madeira), um mercado e visitar a antiga madrassa. Dado o feriado que se aproximava, a maior parte do comércio da medina estava encerrado, dando uma imagem diferente às ruas, habitualmente caóticas. Pessoalmente, o que mais fotografei foi o movimento das ruas, das gentes, do seu dia-a-dia, dos comerciantes e dos seus clientes, a cor que predominava em todo o lado e a visita que efectuámos ao interior do forno de um hamam, onde um forneiro trabalhava incansavelmente, de cócoras, num ambiente escuro e quente, soprando e remexendo o fogo, para que os clientes do hamam pudessem usufruir das virtudes da água quente no andar de cima.

Gostei muito de Meknés, mas perto da hora de almoço partimos para Sul, em direção a El Jadida (الجديدة) a antiga Mazagão portuguesa. A viagem foi muito cansativa, durou horas, chegámos a El-Jadida já de noite. A viagem foi ocupada a rever fotografias, dormir e com jogos de grupo em que um de nós tinha que descobrir, por tentativa – erro, o nome que os outros escreveram num papel. A mim coube-me adivinhar um poeta da minha terra: Bocage!

Estava tudo a fechar quando chegámos, mas conseguimos ainda jantar num restaurante em frente ao porto de pesca, onde se comia peixe e marisco. Não era um restaurante para turistas e é isso que lhe dá o toque especial. Acho que nunca comi tanto na minha vida, era ver chegar travessas de peixe temperado com especiarias, mariscos, saladas marroquinas, molhos, pão. Não negociámos previamente o preço (o que se aconselha a fazer sempre em Marrocos), apenas dissemos que queríamos 3 travessas de peixe (vieram claramente mais). Por sorte, o preço final acabou por ficar nos 10 euros por pessoa. Seguiu-se um passeio pelo mercado exterior à medina, de que que registei sobretudo a confusão do movimento des(organizado), o lixo de um dia de trabalho que se acumulava nas ruas, o trânsito de pequenas motas que por ali irrompiam. Mas, é tudo isto que lhe dá genuinidade.

El Jadida situa-se na costa atlântica, entre Casablanca e Safi e está ainda bastante intocada no que diz respeito ao turismo, é frequentada sobretudo por marroquinos. No centro está a cidadela da antiga Mazagão, que esteve sob o domínio português entre 1506 e 1769, quando os portugueses, cercados pelos marroquinos, fugiram pela porta do Mar para o Brasil, onde vieram a fundar a Nova Mazagão, na região da Amazónia. Posteriormente foi um protectorado francês, até 1956. No interior da cidadela, as placas das ruas ainda estão escritas em português.

Bem, está na hora de voltar à tradição do sacrifício dos cordeiros, isto porque foi em El Jadida que vi acontecer, nas ruas, nas janelas, nas portas, nas pessoas com quem me cruzava. Surpreendentemente, durante a madrugada não ouvi o lamento dos cordeiros, como em Meknés, pelo que pensei que o sacrifício teria ocorrido durante a noite, para que a carne pudesse ser preparada de dia, mas não. De acordo com a tradição, de manhã as famílias deslocam-se à mesquita para a oração, vestindo os seus melhores trajes de domingo e a meio da manhã vão para casa matar o cordeiro.

Os animais estão à porta de casa ou em pátios interiores e são tratados com carinho, como se fizessem parte da família. Ao mesmo tempo, a morte é encarada naturalmente, de um modo prático, como uma tradição milenar a cumprir. O sacrifício é efectuado por um homem (tem que ser homem) experiente, através de um corte rápido no pescoço. Se for bem feito, a morte é rápida, o animal não sofre, sendo isso que se pretende. O sangue escorre pela rua, mancha de vermelho escuro os cantos das casas, as paredes, os nossos sapatos, fica ali. O mesmo sangue que pinta a testa das crianças.

As crianças são outra memória que levo desta cidade, vivas, comunicativas, talvez com uma ingenuidade que já não voltei a encontrar noutros pontos de Marrocos.

Após a morte, o cordeiro é pendurado nas portas das casas, a pele é retirada, por vezes com a ajuda de bombas de ar e o corpo é desmanchado em pedaços, devendo alimentar a família e conhecidos durante semanas.

Tudo é aproveitado, as peles são levadas para depósitos de onde partem para Fez, para a industria dos curtumes, as partes menos nobres, como as cabeças, as miudezas, são vendidas e assadas em fogueiras improvisadas na rua.

Percorrendo as ruas, começo a habituar-me ao rasto da morte, através dos restos que vou encontrado pelo chão, nas peles que vejo ser atiradas de varandas, muitas delas irão ficar ali, à porta de casa, durante dias, até secarem.

De tudo nesta cidade, sou sincera, o que menos me impressionou foi a fortaleza portuguesa, de que visitei algumas ruínas, mas sim a imagem da praticidade da morte, que estava mesmo ali, ao nosso lado, capaz de ser cheirada, sentida, pisada. Fotograficamente não registei grandes imagens desta morte, as principais que captei foi sobre a ligação das pessoas com o animal, vivo. As da morte ficam na memória.

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© Carla Espada

No final do dia foi bom dar um passeio nos pontões, respirar o ar fresco do mar antes de partir para o próximo destino que seria Safi (ⴰⵙⴼⵉ), 135 Km a sudoeste de El Jadida, também na costa atlântica. Foi também uma possessão portuguesa, entre 1508 e 1541, existindo ainda o escudo de Portugal nas muralhas da praça forte. Actualmente é sobretudo uma cidade portuária, sendo o principal porto de pesca da sardinha de Marrocos. Tinha o objetivo de em Safi registar imagens do porto de pesca, de captar o que distingue (se existe distinção) a pesca marroquina da portuguesa, mas acabei por apenas o realizar em Essaouira.

Estávamos no segundo dia da festa do sacrifício e percebemos, na Medina de Safi, que este é o dia das crianças e das brincadeiras com balões de água e ovos, muito semelhante ao nosso Carnaval. Mas, em Safi é a sério!

Caímos no meio de uma verdadeira guerra e foi a minha parte preferida da viagem. Senti-me feliz por estar ali, no meio de Marrocos, com a máquina fotográfica protegida por um simples saco, mesmo que isso tenha significado levar com vários balões de água. O ambiente era indescritível, frenético, de alegria generalizada, água por todo o lado, ao ponto de as ruas se tornarem perigosas pelo risco de escorregamento. De todo o lado surgiam bandos de crianças, armadas apenas com sorriso aberto, balões e alguidares de água, felizes. Depois da morte vieram as crianças, como um renascimento ou purificação.

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© Carla Espada

Outra parte do nosso grupo protegeu-se da água (como se isso fosse possível) e visitou o interior de uma padaria, partilhando com a família o pão acabado de fazer, sem nada em troca, um privilégio.

Esta viagem por Marrocos, para além de ser uma viagem fotográfica, ficou definitivamente marcada pela comida. A sopa harira (a melhor foi logo no primeiro dia, numa estação de serviço entre Casablanca e Meknés), o incontornável chá de menta e o sumo de laranja de Marraquexe, couscous com legumes cozidos, o peixe de Safi e Essaouira, com tempero marroquino, o pão, maravilhoso, para mergulhar nos molhos e comer à mão, o refrigerante de maçã “pommes”, uma grande descoberta e que compensou a falta de uma boa cerveja gelada.

Gostei especialmente de dois lugares, a esplanada de uma tasca na praça Jemaa El Fna, em Marraquexe, onde comemos tajine de frango com couscous e um pequeno restaurante, com vista para o mar, em Safi, onde comemos peixe, excelente.

Se por um lado foi boa a experiência gastronómica, por outro lado foi também cansativa, pensando nas paragens diárias e em alguma confusão em gerir os pagamentos do grupo, realizados na moeda local, o dirham (10 Drh representam mais ou menos 1 euro). No fundo, foi comer fora de casa durante nove dias, com um grupo de 11 pessoas. Muitas vezes tinha vontade de esticar as pernas, em silêncio.

Em Safi aproveitámos para vermos em conjunto algumas fotografias, para ver que rumo estaríamos a seguir individualmente e enquanto grupo. Pela primeira vez, tomei consciência de que gosto de fotografar pessoas, sobretudo pessoas, mas não de forma directa, ou retratos. Não, gosto de me perder nas ruas, nos locais, no meio das multidões e registar o instante, o movimento, os diferentes planos, expressões corporais, como se não estivesse ali, estando. Tinha receio de o fazer, mas aprendi que posso realmente fotografar pessoas sem ser invasiva e respeitando também a minha timidez.

Outros elementos do grupo, da área do design e das belas artes, olham sobretudo para as cores, para o lado gráfico de Marrocos e também para o inesperado, o lado “sujo” (para nós, estrangeiros) que faz parte da cultura deste povo. Outros ainda, olham o pormenor, o olhar, o gesto, a mão, o fazer, uma conversa.

Deixámos Safi ao final da tarde e partimos em direção a Essaouira (الصويرة), para ficar dois dias. O objetivo era ter algum tempo livre, aproveitar para ir à praia, fazer compras, descansar do autocarro. O caminho é quase todo com vista para o mar e praias de dunas grandes, bem vincadas pelo vento. São boas praias para o surf e windsurf.

Já conhecia Essaouira, passei por ela em 2010 e lembro-me de não gostar, apesar de (ou por causa de) toda a imagem do surf, Bob Marley e rastafari.

Mais uma vez, os portugueses fazem parte da história, foram os construtores do forte ou Castelo Real Mogador. Há também uma grande influencia francesa, que se nota na arquitectura, no ordenamento urbano e no incontornável Café de France. A pesca e o turismo são as atividades principais.

É de facto uma cidade bastante turística e a pressão do turismo pode ser a causa da atitude mais fechada da população, maior resguardo, cautela. O tempo não estava bom para praia (para o meu gosto), pelo que aproveitei para andar pelo souk e ir mais fundo, para as ruelas menos frequentadas pelos turistas, procurando a vida real, documentando, sobretudo na memória, os pequenos artesãos. Lembro-me de uma pequena carpintaria, oficinas de reparação de bicicletas, padarias, as ruas estreitas, as casas escondidas por pequenas portas, o olhar resistente e cauteloso das pessoas.

O que me deu mais prazer fotografar foi o porto de pesca, comparar as condições de trabalho dos pescadores com as de Portugal, Este era um objectivo que tinha nesta viagem e notei diferenças, mas também pontos de contacto. A frota de pesca é grande, antiga, com traineiras e arrastões de grande dimensão, ao lado de pequenos barcos de madeira, da pesca artesanal, quase todos da mesma cor azul.

Onde estão os donos destas embarcações? Fiquei com a imagem de uma frota fantasma, que se deslocava coordenadamente com a ondulação. Mas não, há um estaleiro de construção naval, penso que eram traineiras de madeira e vi muito trabalho de manutenção e pintura.

As condições de trabalho não são boas, as redes e os materiais de pesca estão ali mesmo, no cais, amontoados ou guardados em pequenas roulotes improvisadas. O álcool existe, está presente nos hábitos dos pescadores, apesar de ser um país muçulmano, as garrafas vazias no cais provam-no. Acontece o mesmo em Portugal.

Fotografei o mestre da pequena embarcação Samaka (significa pescada), que com sorriso aberto me convidou amavelmente a entrar a bordo, o mesmo sorriso que mantinha enquanto pintava a sua embarcação, um sorrir azul forte. Fiquei feliz.

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© Carla Espada

No final da tarde fomos a um hamam (حمّام), em árabe significa água quente. Tivemos a sorte de ser frequentado pela população local e não por turistas. É um local onde as mulheres podem estar livremente com amigas, familiares, conhecidas. Nos países árabes vê-se pouco comportamentos abertos de carinho e aqui pude observar a mãe limpando carinhosamente o corpo da filha, lavando cuidadosamente o cabelo. Valeu a pena, mas escapei à esfoliação corporal.

A noite foi para descansar, fiz gazeta ao jantar. No dia seguinte partimos cedinho para Imlil, uma pequena aldeia berbere nas montanhas do Atlas. Seria o nosso quinto destino.

A viagem é longa. Até Marraquexe o caminho é dominado pelo amarelo claro da terra-pó, aqui e ali vejo algumas casas de barro e algumas cooperativas de mulheres produtoras de argão, cujo óleo é vendido em Marraquexe e outros grandes centros comerciais. Passamos por algumas pequenas localidades e vou fotografando o trânsito, as pessoas que passam, o comércio, oficinas, os cafés de beira de estrada, frequentados sobretudo por homens. Nesta estrada captei a imagem de um grupo de pessoas, adultos e crianças, possivelmente da mesma família, parados, de costas para a estrada, olhando em frente, para o local onde uma casa rompia com a terra-pó. Seria um regresso a casa ou uma partida?

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© Carla Espada

A partir de Marraquexe a paisagem transforma-se, a terra passa a ser alaranjada e passamos a ter as montanhas em frente. O zigzague da estrada acompanha um rio que desce pelo vale, a paisagem é verdejante, o ambiente é fresco. Se continuarmos em frente teremos os picos mais altos do Atlas e chegaremos a Quarzazate e às portas do deserto.

Imlil é uma pequena aldeia berbere a 1.740 metros e serve de base aos montanhistas que a partir dali podem percorrer os trilhos até ao monte Toubkal. Ficámos numa casa ou abrigo de montanha, cujo gerente ficou conhecido como “no problem”, por utilizar muitas vezes esta expressão. Foi um abrigo simples, sem luxos, mas as camas-sofás eram confortáveis, não faltaram cobertores para aquecer as noites. A comida era excelente, principalmente o pequeno almoço no terraço, o pão, a manteiga, o mel, o potente café marroquino. O melhor foi mesmo ver a vista fantástica das montanhas, entre-cortadas umas nas outras, ver as pequenas aldeias de casas cor de laranja nas encostas, os pomares de maçãs. Uma das aldeias só se conseguia ver de manhã, quando o sol começava a iluminar aquela parte especifica da encosta.

A luz e a sombra dominavam o dia, mas ao anoitecer o terraço era o local obrigatório para estar, descalços, sentados num tapete fofinho, tapados por cobertores, assistindo ao nascer da lua e das estrelas, no meio de dois dedos de conversa e bebendo chá de menta, iluminados pela lua. Numa das noites deu para ouvir ao longe o cantar de mulheres berberes. O que seria? Talvez outro casamento. Tranquilidade.

No primeiro dia fomos visitar a aldeia que ficava na encosta em frente, a que se acedia após atravessar uma ponte de troncos sobre um pequeno riacho. As ruas são caminhos de terra, as casas são de barro cor de laranja, grandes, por vezes com dois andares. Os pátios e andares térreos estão reservados para os animais, cabras, galinhas e burros, que servem de meio de transporte de pessoas e alimentos. Muito semelhante às nossas aldeias transmontanas.

Fomos convidados a entrar e beber um chá de menta pela dona de uma das casas. Acedemos com vontade e fomos acolhidos na que seria a sala de visitas, confortável, dominada pela cor forte dos tecidos e dos tapetes. Bebemos o chá enquanto tentávamos comunicar com as duas irmãs (uma delas grávida), principalmente por gestos. Uma das companheiras de viagem trocou uma pulseira que havia comprado em Essaouira (num mau negócio, como a mesma o dizia), por uma pulseira simples, bonita, de latão, usada pela dona da casa. Foi um gesto de partilha bonito e as duas irmãs ficaram tão contentes que ofereceram pulseiras e lenços às outras mulheres do grupo e convidaram-nos a todos para almoçar couscous no dia seguinte.

O almoço acabaria por se tornar num negócio, com o preço negociado com antecedência, mas faz parte da cultura da população e é justo que assim seja, pela despesa e trabalho que envolve. A família não almoçou connosco, manteve-se sempre à distância. Sobrou muita comida, que depois terá sido partilhada pelos nossos anfitriões.

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© Carla Espada

Terminámos de almoçar quando se iniciou o chamamento para a oração, que se realizaria na mesquita improvisada no pátio de uma das casas em frente. Os homens iam entrando, depois de deixarem os sapatos na entrada. Pela primeira vez vi (espreitando da rua) a oração no interior de uma mesquita, conduzida pelo imã. Na rua havia uma caixa para as pessoas depositarem um donativo para a construção da nova mesquita comunitária.

Apesar de ser montanha, os caminhos entre as aldeias estão em boas condições, a maioria aproveita as levadas que distribuem a água pelas aldeias. Existem várias represas e quedas de água, algumas são aproveitadas como pequenas estâncias balneares, para as famílias descansarem e realizarem as suas orações, resguardadas por toldos de juncos, enquanto a tajine coze na pequena botija de gás.

Lembram-se da Festa do Sacrifício do cordeiro? Passou despercebida em Essaouira, mas voltámos a ter contacto com a tradição em Imlil. Nesta altura homens ou rapazes vestidos de cabras correm pelas aldeias e pelos montes. Tem pontos de contacto com os homens que se mascaram de caretos para perseguirem as raparigas solteiras, só que em Imlil perseguem jovens e homens do sexo masculino, para bater com um pau nas pernas.

As pessoas são muito reservadas, a maioria não quer ser fotografada e compreende-se que assim seja, é uma defesa à pressão do turismo, que já é bastante visível nas ruas e no comércio. Registei algumas imagens, de paisagem principalmente, mas Imlil e as montanhas Atlas ficaram bem documentadas na memória, uma boa memória.

Depois de Imlil, voltámos à estrada, regressámos à grande urbe Marraquexe (مراكش), o nosso sexto e último destino. Comparando com 2010, a última vez que estive na cidade, não notei grandes diferenças.

Marraquexe é tão grande, o impacto desta cidade é tão grande, tornando-a pequena aos meus olhos e isso reflecte-se nas fotografias.Gosto de fotografia de rua, mas em Marraquexe procurei sair da confusão e do ruído da praça Jema El Fna e procurar as ruas mais pequenas da medina. Olhando a Praça Jemaa El Fna de costas para a kotobia, as ruas da medina à direita, por trás do Café Glacier, são as melhores porque ainda é possível sentir nelas a real Marraquexe. Sentámo-nos nas escadas de uma mesquita para descansar da caminhada e registámos algumas imagens com efeito “panning”.

A noite foi para jantar na frenética praça Jema El Fna, um verdadeiro acontecimento cultural e gastronómico, a não perder e regressar aos nossos hábitos, partilhando umas cervejas no bar de um hotel. No dia seguinte regressámos a Lisboa.

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© Carla Espada

Todos juntos. Esta é a expressão que melhor caracteriza os meus companheiros de viagem, já que andámos quase sempre juntos, mesmo que as circunstâncias do local e a fotografia recomendassem a dispersão por sub-grupos. Dentro da heterogeneidade de pessoas, umas mais abertas, outras mais fechadas (onde me insiro), adaptá-mo-nos bem às diferenças de cada um e foi bom partilhar nove dias de aventura com estes companheiros de viagem, que até uma semana antes da viagem eram completos desconhecidos. A despedida no aeroporto de Lisboa, foi com emoção.

Relato de uma participante do workshop de fotografia documental, realizado em Marrocos pelo MEF – Movimento de Expressão Fotográfica, entre 10 e 18 de setembro de 2016. Não trilhei um caminho visual certo, coerente, mas sim de procura de algo, emoções, sentimentos, devoção, manifestações visuais da natureza humana. Talvez todos tivéssemos trilhado o mesmo caminho, mas de formas visuais diferentes.

Revisitando Londres

Sou sincera, não gostei muito de Londres: a comida, o frio, a chuva chata, o pouco sol, as deslocações intermináveis pelos corredores de metro e … principalmente … a salsicha fresca que comi num pub

Olhando novamente para estas fotografias de uma viagem a Londres, em 2007, fico com vontade de voltar, de sentir a cidade de outra forma.

Sou sincera, não gostei muito de Londres: a comida, o frio, a chuva chata, o pouco sol, as deslocações intermináveis pelos corredores de metro e … principalmente … a salsicha fresca que comi num pub e que me levou a mim e à Cris a passar uma noite a caminho da casa de banho. No dia seguinte deveríamos estar frescas e fofas a caminho da Torre de Londres, mas o tom amarelado das nossas caras denota que estávamos antes podres e doentes.

A chuva foi constante e lembro-me de visitar o parque e observatório de Greenwich debaixo de uma chuvada intensa, simplesmente não parava de chover. Se há coisa que detesto é andar de guarda chuva na mão.

Foi um fim-de-semana, na segunda feira estávamos no comboio a caminho de Edimburgo. Essa, ficará para outro post.

Gostei de algumas coisas que vi: os mercados, os parques, os táxis, Nothing Hill, os autocarros, a Torre de Londres … não me lembro de muito mais, talvez tenha ficado toldada pela doença ou as memórias tenham sido levadas pela chuva. Mas penso voltar,  ver de outra maneira, de outra forma.

Pela Cantábria e Picos da Europa

Retratos de uma Road Trip. A paisagem que vemos da janela do carro é bucólicamente rural. Temos vontade de caminhar pelos vales, de tomar banho no Rio Miera, que nos acompanha

Fui ver a Martita, mamã babada e feliz da sua Ana Sofia, uma bebé linda de dois meses e depois de ver imagens lindíssimas no blog Agora Digo Eu, lembrei-me da Cantábria e que está a fazer um ano que eu e a Marta fizemos a nossa road trip de três dias, completamente à aventura. As paisagens, a máquina fotográfica e um Seat Ibiza alugado.

Partimos de Lisboa para Santander numa quarta-feira, já ao final do dia. Éramos quatro pessoas numa carrinha e após algumas paragens higiénicas e jantar em Tordesilhas, chegamos cansados a Santander por volta da 01:30 da manhã. Após um sono breve, o dia de quinta e sexta de manhã foram de trabalho e pouco deu para conhecer a cidade, com exceção da praia de areal vasto, convidativo a passeio, que víamos da janela do hotel. “Então, isto é só trabalho e passear nada?” Decidimos não regressar a Lisboa na sexta-feira à tarde e ficar por ali, para conhecer melhor a Cantábria e os Picos da Europa.

Tomámos a decisão e os nossos dois colegas lá regressaram a Lisboa, apreensivos. Comprei um biquíni e corremos imediatamente para a praia em frente, Estava maravilhosa, tendo em conta que é a Norte, no Golfo Cantábrico. Água quente, ondas razoáveis, convidativas a mergulhos e mais mergulhos.

Quando regressámos à areia, tinha desaparecido a mala da Marta, com dinheiro e telemóvel. Nunca a encontrámos nem percebemos se foi furtada ou simplesmente perdida. Foi um percalço a que nos tivemos que habituar. Alugámos um Seat Ibiza, branco, no aeroporto de Santander, com algumas dificuldades operacionais, linguísticas e financeiras, face ao acontecido e algumas discussões também. Mostrou-se um bom carro, resistente e confortável de conduzir.

No sábado de manhã demos inicio à road trip e partimos de Santander, pela auto-estrada, em direção a San Sebastian. Saímos em Solares e apanhámos a estrada CA 162, em direção a Liérganes e ao vale do Rio Miera, que faz parte da região dos Valles Pasiegos. A paisagem que vemos da janela do carro é bucólicamente rural, com prados, pequenas aldeias, vacas e casinhas acolhedoras, no meio de vales verdejantes. Temos vontade de sair em todas as localidades, de passear pelas ruas pequenas, de falar com os seus simpáticos habitantes, de caminhar pelos vales, de tomar banho no Rio Miera, que nos acompanha. Almoçamos numa aldeia próxima de Liérganes e descemos ao Rio para molhar os pés. O cenário é de paz, não se ouve nada, apenas o sussurrar da água a bater nas pedras e nos pés.

O Som do Rio Miera

Caminhadas, pesca, espeleologia, montanhismo, visitas a património cultural e religioso são algumas das actividades que se podem realizar nesta região, considerado o vale mais agreste e montanhoso da Cantábria. Mas, para mim, bom mesmo é arrendar uma casa e ficar ali durante dias.

Depois de um belo repasto de enchidos, grelhados e queijo da região, voltámos ao Seat. Tínhamos um longo caminho pela frente até Fuente Dé, o destino final desse dia. A paisagem foi mudando do verde bucólico para o castanho lunar das montanhas glaciares mais altas. Igualmente belo, simples, imenso. Em Espinosa de los Monteros seguimos pela estrada BU-526, em direção aos Picos da Europa. Contornámos o Embalse del Ebro, em grande lago ou pântano que se situa entre a Cantábria e Castela-Leão. Lembro-me do lago ao pôr-do-sol, dos mosquitos, eram imensos e do cansaço da condução, que nessa altura passei a Marta.

Começou a anoitecer quando começamos a ver os os primeiros Picos da Europa, são montanhas pontiagudas, parece que querem tocar as nuvens. Pensando bem, a noite é a pior altura para conduzir nas estradas sinuosas de montanha, mas conduzimos com cuidado, muito devagarinho, porque nunca sabíamos o que iríamos encontrar ao virar de cada esquina. Os animais circulam por ali, como se os seres humanos não existissem e encontrámos cavalos de montanha (felpudos) e vacas na estrada. O sinal “caça grossa” é real, atenção!

Chegámos a Espinama (a 2 Km de Fuente Dé) já de noite, perto das 22h00. Havia movimento nas ruas, mas estava frio e estávamos muito cansadas, pelo que comemos qualquer coisa e fomos logo dormir. No dia seguinte levantá-mo-nos cedinho e fomos para Fuente Dé, um ponto de partida para montanhistas. É um circulo glaciar rodeado por uma parede imensa de picos. Há um teleférico que nos leva a uma altura de 753 metros. A Marta ficou com os pés assentes no chão, mas eu subi. A vista da minha janela e do mirador é soberba. Para além do montanhismo, na região há também muitas grutas e minas abandonadas. Por ali perto estão as famosas grutas de Altamira.

Mas, infelizmente não nos podíamos alongar e partimos com destino a Vigo. Seguimos pela auto-estrada A8, que cruza a a Cantábria, as Astúrias e a Galiza, sempre a conduzir, com os olhos nos Picos que víamos à esquerda e no Mar que víamos à direita. Fizemos uma paragem para comer na Praia de Ribeiria, em Tapia de Casariego e seguimos em direção a Lugo, pela estrada N – 640, onde fizemos uma curta paragem. Lugo é conhecida sobretudo pela muralha romana, declarada património da humanidade.

Lugo, Ourense e Vigo, o destino final (no Seat), onde deveríamos chegar antes das 19h00 para entregar o carro no aeroporto. Conseguimos! O objetivo era apanhar o comboio até Lisboa, mas não planeámos absolutamente nada, nem sequer vimos os horários dos comboios, porque na maior parte do tempo não tínhamos acesso à Internet. Quando chegámos a Vigo tinha acabado de partir o comboio e só há um por dia para Portugal. Muito importante: no dia seguinte era dia de trabalho e tínhamos que estar as duas em Lisboa.

Depois de discutirmos com o senhor da estação e de discutirmos entre nós, decidimos pagar 100 euros a um táxista que nos transportou até Braga, onde às 24h00 apanhámos um autocarro para Lisboa. O final desta aventura foi às 04:00 da manhã, na Gare do Oriente, morta de cansaço, mas conseguimos! A viagem deu frutos: cheia de saudades do seu companheiro, a Marta engravidou pouco depois. Durante a viagem falámos sobre as nossas vidas, trabalho, amores, desamores, família e no desejo de sermos mães, uma já foi.